A história da versátil Cadeia Velha de Santos

Câmara Municipal, presídio, fórum, Tribunal da Justiça, hospital, quartel-general, ponto de manifestações e centro cultural. Tantas utilidades em quase 15 décadas para um prédio que desde o início de 2012 está de portas fechadas à população: a antiga Casa de Câmara e Cadeia, mais conhecida como Cadeia Velha de Santos.

“Ainda mais, porque é uma construção típica do Brasil, com pedra, cal, argila, areia e melado de cana-de-açúcar”, detalha Luciana Sans de Menezes, arquiteta responsável pelo projeto executivo de restauro do local que guarda muitas memórias em seus 2 mil metros quadrados, contemplando 13 salas (dessas, oito antigas celas) no térreo e outros sete ambientes no andar superior.

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“A Cadeia Velha é o nome popular, mas, na verdade, ela era chamada antes de Cadeia Nova, porque foi a segunda da Cidade”, destaca Luciana. O primeiro presídio de Santos também concentrava os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e foi erguido ainda no século 19, bem na Praça da República, mas demolido devido a sua pequena estrutura, em 1870. Assim, os serviços do Paço Municipal, da Câmara e do Fórum foram transferidos ao novo equipamento.

Já em 1820, as lideranças da futura cidade (a emancipação seria em 1839) de quatro mil habitantes cogitavam a construção de um local de maiores proporções, bem no Largo de São Jerônimo, terra da família dos Andradas (por isso, a futura praça ganhou esse nome).

01Em 1831, o projeto original sem autoria previa a cadeia nova com dois pavimentos em todo o prédio, sem os alpendres (sacadas) no pátio interno, sequer janela central na fachada: no lugar, haveria um brasão do Império. Com o decorrer das obras, iniciadas em 1838, o prédio foi ampliado e sofrendo alterações, até ser concluído 30 anos depois.

DE QUARTEL A PRISÃO

A demora nas intervenções está relacionada com a Guerra do Paraguai. Com os combates, a economia do Império previa poucos recursos aos edifícios públicos. Além de que as obras foram paralisadas entre 1865 e 1866, justamente para que o lugar se tornasse em quartel das tropas brasileiras.

Somente nos anos seguintes, é que ele centralizaria os três poderes da Cidade. De acordo com atas oficiais, seria até visitada pelo imperador Dom Pedro II, a princesa Isabel e seu marido Conded’Eu, em 1888. A solenidade também homenagearia a princesa, autora da Lei Áurea, já que metade da população santista (na época, já eram 10 mil habitantes) era formada por negros. E, desde então, seu nome batizou a plenária dos vereadores.

Luciana explica o funcionamento do espaço: “Nas Casas de Câmara e Cadeia, era bem comum que nas salas do pavimento superior funcionassem o Legislativo e o Fórum, e o primeiro andar fossem reservados aos presos. O atual jardim central, no térreo, na época, era o pátio dos prisioneiros”.

03Na lista de presidiários, tanto assaltantes quanto presos políticos, entre eles, a modernista Patrícia Galvão, a primeira mulher presa por razões políticas, ao participar de uma greve sindical no Porto de Santos, em 1930.

O prédio permaneceu recebendo presos até 1958, quando o local já sofria de uma superlotação carcerária: eram 300 pessoas para 80 vagas. Daí, foi desativado, restaurado e tombado como patrimônio histórico em nível federal. Em 1973 e 1974, o espaço também foi tombado respectivamente em níveis municipal e estadual.

SEGUNDO RESTAURO

Destinado a se tornar Museu dos Andradas, a Cadeia Velha fechou as portas até ser repassada ao Governo Estadual e restaurada, em 1984. Assim, desde a década seguinte, tornou-se o lar do projeto paulista Oficina Cultural Pagu.

W DE WALLACE

Segundo a arquiteta Luciana Sanz de Menezes, durante o trabalho de restauro, “fizemos a prospecção de cerca de 80 centímetros quadrados nas paredes e achamos pinturas murais, algumas repetitivas e outras artísticas”. Umas ainda do século 19, e outras do século 20, todas camufladas de tinta branca na última reforma.

Por estarem nas bordas das paredes, não é possível reconhecer os desenhos. O único símbolo que Luciana identificou foi uma letra W. “Penso que pode ser uma homenagem ao vereador Wallace”. Inácio Wallace da Gama Cochrane foi o presidente da Câmara que concluiu as obras da Cadeia Velha.

*Publicado em A Tribuna em 26 de agosto de 2013

 

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4 comentários em “A história da versátil Cadeia Velha de Santos”

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