Consequências do machismo

Em uma rápida consulta, o vocábulo “machismo” é um tanto recente entre os dicionários. Uma das primeiras menções ao termo se encontra na década de 70, pelo dicionário Aurélio, mas ainda visto enquanto qualidade. Na segunda edição, ele emerge como uma referência de “atitude ou comportamento de quem não admite a igualdade de direitos para o homem e a mulher, sendo, pois, contrário ao feminismo”.

03Deste modo, não se trata de que o machismo seja uma ideologia comum apenas no último século, mas de que tal valor era tão naturalizado no comportamento das sociedades anteriores, que somente no surgimento dos movimentos feministas que ele ganha tal denominação. E assim, classificando-se como contraponto do feminismo, este termo que então era refletido como a conquista igualitária de direitos entre homens e mulheres e, mais recente, também nomeando a emancipação de direitos e de protagonismo feminino.

Antropólogos consideram que, antigamente, na sociedade, o feminino preponderava, pois era da maternidade a origem da vida. Logo dando à mulher um significado maior, em sociedades matriarcais da Era Paleolítica, cabendo aos homens à caça e as mulheres à colheita. “Todo mistério que envolvia a mulher pode ter contribuído, na verdade para que o culto que o homem lhe rendia, estivesse baseado de forma muito mais significativa naquilo que o temor ao desconhecido suscita [a gravidez] e, portanto, poderíamos chamar de um culto baseado no terror, do que em um ‘reconhecimento’ do ser mulheres como uma posição referida ao amor” (LIMA).

02É interessante observar como o machismo aplacava os direitos das mulheres até mesmo nos códigos civis. Por exemplo, a sexualidade e as práticas sexuais sempre permaneceram nas constituições do Brasil como modo de controle da procriação. Ainda hoje, há uma série de restrições e pontos a serem revistos. No século passado, cabia a elas, apenas o exercício da maternidade e reprodução na sociedade, supervalorizando-se também a virgindade e a correspondência das expectativas de seus maridos. No Código Civil Brasileiro de 1916, o artigo 290 permitia que os esposos pudessem anular o casamento, “até 10 dias após a cerimônia, caso descobrisse que sua mulher não era mais virgem, alegando, para isso, erro essencial sobre a pessoa”.

A ausência da castidade até o casamento poderia gerar à mulher não apenas a desonra de um matrimônio desfeito, mas ser deserdada de qualquer patrimônio de seus pais e familiares. Querer seguir uma vida enquanto solteira remetia à falta de honestidade do que era entendida como sua exclusiva causa no mundo: o casamento. Logo, no artigo 1.744, autoriza-se a deserdação dos descendentes no caso de “desonestidade da filha que vive na casa paterna”.

04Esta negação constante de prioridades aos direitos e desejos da mulher na sociedade continuou por séculos. Datado de 1930, o livro Moral Sexual do médico José de Albuquerque cita que a “questão sexual não é vista como a possibilidade de interação entre duas pessoas, mas sim como uma forma de aliviar uma necessidade premente nós homens, porque as mulheres que são honestas não têm tais necessidades” (ARAÚJO).

01São nestes valores machistas intrínsecos às culturas de outros séculos que a partir de 1930, as mulheres conseguem gradativamente se empossarem de direitos. Somente em 1932 que o então Código Eleitoral permitia a elas o direito ao voto. E apenas trinta anos depois, por meio de um Estatuto da Mulher Casada, extinguia-se a elas o mesmo status de menores, alienados e indígenas, considerados como pessoas de incapacidade civil. Passariam a ser portadoras de direitos. Mas, neste caso, apenas as casadas.

Seções

Introdução
1. Trajetória de Maria Mercedes Féa
1.1 Pesquisa sobre culto popular à Maria Féa – Capítulo 3 (link externo)

2. Consequências do machismo
2.1 Pesquisas sobre machismo no Brasil (link externo)
2.2 Vítimas de ‘vingança pornô’ (link externo)
2.3 Relatos da campanha ‘meu amigo secreto’ (link externo)
2.4 Relatos da campanha ‘meu primeiro assédio’ (link externo)
2.5 Casos de assédio em Santos (link externo)

3. Garantias graduais de direitos às mulheres
3.1 Guia de leis brasileiras dos Direitos da Mulher (link externo)
4. Violências contra a mulher: feminicídio e crimes íntimos
4.1 Casos famosos de feminicídio no Brasil
4.2 Casos de feminicídio no Brasil (link externo)
4.3 Casos recentes de feminicídio na Baixada Santista
4.4 Obras artísticas sobre feminicídio e machismo (link externo)

Vídeos relacionados

Apesar do primeiro vídeo ser teen e outro reportagem, ambos são bem didáticos e breves na explicação sobre os males do machismo.

Referências

ARAÚJO, Maria Luiza Macedo de. Sexualidade: (re)pensando a repressão. Revista Brasileira de Sexualidade Humana. Vol. 8. Nº 2. Rio de Janeiro: Sbrash, 1997.
LIMA, Vera Lúcia. História da Mulher. Revista Terapia Sexual – clínica-pesquisa e aspectos psicossociais. Vol. 6. Nº 2. São Paulo: Iglu, 2003.

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