Entrevista: ‘Amor e loucura se fundem em Van Gogh’, define Tatiana Justel

O costumeiro cachecol deve estar protegendo seu pescoço neste frio sob as nuvens. Apesar de ser verão na zona do euro, as baixas temperaturas de lá devem acolher a bailarina santista Tatiana Justel. A artista embarcou nesta quinta-feira (dia 9) para a França, onde será a sua morada cultural na próxima quinzena.

Em seu retiro pelo Instituto Maison de Van Gogh onde foi contemplada com uma bolsa de estudos, ela pretende reacender a sua paixão pela arte impressionista. Até porque, ao seu ver, as artes plásticas são como irmãs da dança, por sua vez, ligada fraternalmente a literatura, cinema… “Quando olho uma tela que gosto, automaticamente associo a uma música, e a dança acontece, porque penso com o corpo”.

03Não só o corpo, a alma de Tatiana deve ser aquecida neste período com os resquícios de Van Gogh, o pintor que ela mais admira nos últimos trinta anos. “Van Gogh marchava solitário contra a velha e defunta moralidade da época. Amava obsessivamente”. Por lá, pretende caminhar pelos trajetos do artista que transformava dores em quadros.

A partir de qual instante, você percebeu envolvida nas artes plásticas?

Foi quando tive o primeiro contato com a dança, aprendendo o ballet clássico. Era quase impossível dissociar a arte da dança das outras artes. Recordo que, nessa ocasião, meados de 80, quando frequentava assiduamente o Teatro Municipal de Santos, havia uma exposição na Galeria Braz Cubas de releituras de impressionistas, com a arte de Claude Monet, Paul Cézanne, Pisarro. Desse contato, surgiu a minha atração instantânea pelo movimento impressionista e especificamente por Van Gogh.

Em que lhe contribui as artes plásticas com seus outros trabalhos, como de dança e expressão corporal?

04Minha dança parte de um processo de criação sobre todas as artes. Vejo afinidades da dança com tudo. Meu corpo dialoga com uma fotografia, uma tela, uma obra literária, uma escultura. Desenvolvo performances há algum tempo com artistas de todos os segmentos. Nas artes plásticas foi natural, assim como dançar um poema, uma música de Franz Liszt, Erik Satie. Quando olho uma tela que gosto, automaticamente associo a uma música, e a dança acontece, porque penso com o corpo. O movimento é tão natural para mim, como deve ser para um músico compor, ou a um pintor dar suas pinceladas.

Recentemente você ganhou uma bolsa de estudos sobre arte impressionista no Instituto Van Gogh. O que te levou a participar deste processo?

Em 2005, conheci o Instituto Maison de Van Gogh, o AubergeRavoux, e, desde então o frequentei inúmeras vezes. Fiz algumas oficinas, mas nunca tinha percebido o tamanho do meu envolvimento. E lá se vão 10 anos da minha vida, nessa relação. Conheci logo na primeira visita o diretor do Instituto, Jean-Louis, com quem sempre troquei ideias. Alimentava o sonho de trazer a instalação do Instituto para o Brasil, que ainda não se concretizou. No fim de 2014, Jean-Louis me convidou, com direito a uma bolsa integral, para estudar duas semanas, sobre a arte impressionista, com ênfase em Vincent Van Gogh.

Entendo isso como mais um sinal importante e embarco no feriado de 9 de julho para reviver essa experiência de uma outra maneira. Não vou apenas com o objetivo de acrescentar em mim novos conhecimentos. Desta vez vou com o objetivo de traduzir melhor e profissionalmente Auvers-Sur-Oise, por meio de fotos, entrevistas, áudios, tudo o que puder colecionar, com o olhar de artista e de gestora. Estabeleci para mim o desafio de mostrar Auvers com o olhar de Van Gogh. Penso que a arte deve, através do objeto, revelar o esplendor. E quando vemos uma obra de arte, com a sensibilidade à flor da pele, sentimos que ela fala com a nossa própria vida.

O impressionismo destoa das regras básicas das artes clássicas desde 1800 e, muitas vezes, soa ao público como devaneios artísticos, resgate do lúdico em tardes ensolaradas. Por qual razão escolher estudar este movimento em especial?

06Um artista em seu processo de criação, se não divagar e ter devaneios, não é um artista. Mas claro que o impressionismo foi uma revolução, como todos os movimentos, cada um em sua época, acompanhando a história, o cotidiano, a cultura e a sociedade. Acredito que estamos vivendo esse momento. As coisas extrapolaram, tudo é arte? Há coisas herméticas demais, estamos carentes de uma revolução histórica e cultural.

Você já confessou ser amante da história de um pós-impressionista, Van Gogh. Faz parte do senso comum os casos de cortar a orelha e morrer na miséria. O que tanto te fascina na trajetória dele?

Há tantas controvérsias sobre essa história da orelha. Como pode um artista tão brilhante ser lembrado por um fato triste? O que me fascina é o artista. Van Gogh pintava compulsivamente, não vendia suas obras, e a única tela que ele vendeu foi ‘Vinhedo Vermelho’, pela bagatela de 400 francos.

Gogh fracassou em vários empregos, esgotava os bolsos e cultivou infelicidades nos relacionamentos amorosos – da amante prostituta até a sua noiva que tentou suicídio – até ser diagnosticado como paranoico. Alguns especulam que a sombra do pai autoritário e do irmão mais velho, seu homônimo, que veio a falecer, contribuíram para sua loucura.

05Já escrevi minhas impressões em meu blog. Interpreto a sua figura com arte e amor à arte. Van Gogh marchava solitário contra a velha e defunta moralidade da época. Amava obsessivamente, mas desconhecia essa forma de amor que nós entendemos como amor. No seu autorretrato, vejo em seus olhos vultos estranhos e suas mãos inquietas.

Queria uma única vez que suas mãos fossem apenas folhas em branco, à espera da minha inspiração, Vincent. A expressão da sua face poderia ser mais leve, líquida e doce. Ainda assim não há palavras que exprimem a singeleza de um pedaço de céu, de um olhar, de uma flor. De repente me parece inútil tudo isso, e o que sinto agora, é profundo indefinido e imenso. O amor e a loucura se fundem em ânsias e gozos, espirais de fumaça e poesia.

A carreira artística de Van Gogh também merece apontamentos. Ele se renovou em diferentes técnicas e fases, algumas delas mais se destacam ao seu ver? Quais seriam os quadros que mais te sensibilizam?

Essa é a pergunta mais difícil (risos). Seriam ‘Comedores de Batatas’ (1885), ‘Starry Night’ (1889), ‘Campo de Trigo com Corvos’ (1890) e ‘Autorretrato com a Orelha Cortada’ (1888). Acredito que a fase em que ele decide montar um ateliê coletivo em Arles, foi a mais produtiva e destrutiva também. Ele consegue criar a Casa Amarela, a fase do amarelo merece uma atenção especial.

01Era uma época em que todos bebiam absinto, e o absinto por sua vez só iria piorar seu quadro depressivo, e contrair uma distorção visual, chamada ‘Xantópsia’. Van Gogh via tudo amarelo. Foi em Arles, que ele conviveu com Paul Gaugin e se apaixonou por uma prostituta: foi a fase dos girassóis, da orelha cortada, das internações nos manicômios. O meu interesse e estudo é a fase que ele vai viver em Auvers, daí surge o nome da mostra.

Ainda neste período de estudos, você comentou que gostaria de trazer à Santos a exposição ‘Pelos Caminhos de Auvers’. Pode comentar um pouco mais do que seria criado? É você quem está desenvolvendo a mostra?

Primeiro quero estudar, vou trazer tudo o que puder para mostrar Auvers. Desejo fazer uma mostra, propondo um intercâmbio cultural entre Santos e Auvers, para compartilhar o máximo possível desse lugar fantástico, com foco na obra de Van Gogh. Sua vida já foi vasculhada demais e essa parte deixo para os especialistas, os freudianos de plantão. A sua única ambição, em uma época de excessos, era fazer uma exposição em algum café em Paris. Pois quero seguir sua linha de raciocínio, quando me vejo tomada pelo ego de artista.

É nele que penso, quando dizia: É tão difícil de ser simples! Talvez minha ambição seja essa, nessa nova oportunidade em minha vida de artista e de gestora cultural em Santos: realizar uma mostra em algum café, bistrô ou algo parecido. Tentarei o apoio público, mas não pretendo resumir aos caminhos carimbados e comuns dos artistas de nossa região. Acho muito importante socializar o conhecimento sobre esse artista mundial com oficinas para iniciados ou não. Van Gogh merece ser homenageado sempre. Quando eu voltar, falarei e tentarei convencer primeiramente os que têm toda condição de ajudar nessa realização.

*Lincoln Spada

 

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