Opinião: Militão e Calixto, os poetas do imaginário visual de Valongo e cidade

Por Lincoln Spada

A Santos mais antiga que surge em meu imaginário tem poucos tons de cinza. Uma perspectiva inclinada do Santuário de Santo Antônio do Valongo, os casarios de portas e janelas altas vistos da calçada, o chão de terra onde caminhavam cavalos e pessoas pela atual Praça dos Andradas e a então Casa de Câmara e Cadeia ao fundo. Se a minha mente colore as vias da cidade, o cenário é sempre ensolarado quando os homens rangam à frente de um hospital e capela, quando os mastros altos cruzam o céu próximo ao porto, e quando o oceano e o horizonte abraçam uma linha reta de barcos e moradas em tons claros.

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Todos esses ângulos eternizados pelas mãos do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) e do artista plástico Benedicto Calixo (1853-1927). Ambos correspondem a minha e a nossa visão sobre a contemplativa ilha de outros séculos a efervescer no atual Valongo – Festival Internacional da Imagem. Como quimeras artísticas, boa parte das telas de Benedicto no século 20 são inspiradas no acervo de Militão do século 19, numa mescla de verdades e verdades dos autores, que literalmente se tornam como a real interpretação histórica da nossa cidade.

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“Tenho trabalhado muito e creio que nada farei”, anotava o carioca Militão em um de seus álbuns. A alma romântica registrada em verso vem de sua formação como cantor lírico e ator da Sociedade Dramática Nacional. Casado e com filho recém-nascido em 1862, viaja para São Paulo, onde se enamora de vez pela fotografia. O daguerreótipo era a primeira possibilidade de guardar um instante nas próprias mãos. Em 1865, Santos era o cenário das placas de cobre de Militão, essas banhadas em prata onde se fixavam as imagens através de um processo em contato com a luz.

a9Os contornos do Valongo e Centro Histórico captados por Militão são considerados como acervo fotográfico mais antigo sobre a cidade, há 150 anos. Uns alegam que Santos receberia novos ângulos do carioca com a construção em 1867 da estrada de ferro que ligaria a capital à ilha, revolucionando o município que adotaria de vez a vocação portuária com as exportações da província de São Paulo. Aliás, a cidade seria uma de tantas outras terras registradas sob o olhar apurado do fotógrafo, que, de fato, queria acompanhar as transformações urbanas daquele período no estado paulista.

O município retratado por Militão encantava o itanhaense Benedicto Calixto, que veio morar em Santos na vida adulta. Também autodidata, pintou muros e placas de propaganda até se dedicar às paisagens que ornavam tetos e paredes dos palacetes, igrejas e demais edifícios nobres espalhados no litoral e interior paulista. Casado e com filhos, Benedicto sustentava o seu lar com as telas grandiosas onde registrava em horas a família de barões de café.

a8Com o seu trabalho no primeiro Teatro Guarany (idos de 1880), Benedicto ganhou homenagens e bolsa de estudos para a França, onde se consagrou e levou as técnicas e equipamentos para pincelar quadros a partir de fotografias. Desde a fundação de Santos até obras religiosas compõem os 1,7 mil frutos das mãos do artista da Baixada Santista. Um mosaico rico que alinha morros e centro, porto e praia de Santos e região. Legado tão amplo quanto o de seu fotógrafo contemporâneo que formam a identidade de nosso Valongo e cidade.

 

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