Entrevista: ‘A curadoria coletiva foi uma grata surpresa’, avalia diretor do Curta Santos

Por Lincoln Spada

Com o tema ‘Inclassificáveis’, o Curta Santos – Festival de Cinema de Santos teve diferenças pontuais em sua 14ª edição, realizada entre 26 de setembro e 1º de outubro. A recém-aberta Cadeia Velha foi palco do início e encerramento do evento que segue desde 2002 na cidade.

a9Se por um lado não houve o anúncio antecipado de celebridades homenageadas na abertura ou o Curta Escola, por outro se consolidou a Mostra de Longas e ampliou as linguagens artísticas durante o festival que contou, entre suas ações, com o Encontro de Criadores.

Ainda, o movimento audiovisual local [CinemaMêmo e Mostra das Minas] ganhou mais espaço com oficinas e sessões do evento, que reuniu 51 filmes em 16 sessões. A curadoria coletiva entre os inscritos da mostra regional Olhar Caiçara também foi uma novidade. E a avaliação da última edição é abordada em entrevista por telefone com o diretor do festival, Ricardo Vasconcellos.

Esta é a primeira edição que o Curta Santos não homenageia publicamente algum cineasta ou artista reconhecido na cena nacional. Por qual razão houve essa mudança e até que ponto isso afeta a visibilidade e a relação do público com o festival?

a91Bem, a gente não é engessado em formatos. O Curta Santos sempre quando tem uma oportunidade de homenagear ou identificar personalidades que contribuíram para fomento ou cenário do cinema nacional, faz esta homenagem. Neste ano, nós não abrimos publicamente a quem estaríamos homenageando, que foi a Helena Ignez. Ao aceitar compor o júri e ministrar uma atividade conosco, pensamos toda nossa arte visual em cima da imagem dela e, na abertura, ela se sentiu surpresa.

Entregamos o Troféu Maurice Legeard a ela por toda a trajetória que já tem, que tinha a ver com o tema deste ano do festival, ‘Inclassificáveis’. Então não teve o anúncio anterior, mas foi muito mais pela surpresa para a Helena Ignez. Sobre a visibilidade, acho que não reduziu, porque o festival está consolidado, e o que é mais importante [ao público] são as mostras, as produções realizadas em nossa região.

Também neste ano, o evento proporcionou uma curadoria coletiva e realizadores locais passaram a dar oficinas, junto de Fernando Timba, Helena Ignez e Di Moretti. O festival prevê ou prepara em curto prazo maior participação dos cineastas locais também na gestão do Curta Santos?

a3É uma consequência natural. Aqui na região, temos grandes profissionais, e estão despontando, não só no universo audiovisual, mas que também atuam em outras áreas. Temos como exemplo, o Rafael Gomes [cineasta, diretor teatral, dramaturgo e roteirista], que já participou do Curta Santos como jurado e realizador. E de dois anos pra cá, a gente percebeu que o movimento audiovisual [CinemaMêmo] ganhou corpo, fala e participação, e por que não, que os seus integrantes estejam no festival da cidade?

A gente fez o convite ao CinemaMêmo e, em comunhão, escolheram pessoas para ministrar atividades, e as atividades ocorreram na Oficina Pagu, na própria Cadeia Velha, e nos morros. Alguns já desenvolviam essas atividades formativas no Curta Escola [oficina audiovisual para alunos do Ensino Fundamental], quando estavam na faculdade.

a95Em relação à curadoria, foi um experimento. Noutros anos, a gente já fez a curadoria da Mostra Olhar Caiçara com a equipe da organização, com pessoas de fora, com gente da própria cidade, dentro da área de cinema, com e sem a nossa participação… E percebemos na escuta do próprio movimento, que a curadoria poderia ser mais democrática, então a gente entendeu que quem deveria essa escolha do Olhar Caiçara eram os próprios realizadores.

Para nós, foi uma grata surpresa. Foram quase oito horas por dia assistindo a quase 50 filmes. E a gente percebeu que curtiram muito, os realizadores vieram [só houve desistência de cerca de 15% entre os 60 inscritos]. Como a gente sempre falou, somos abertos para sugestões, conversas, tanto de grade, quanto de formato para as edições do Curta Santos.

Nas mostras caiçaras, percebe-se ter cada vez mais produções de mulheres cineastas (36% ante 22% dos selecionados em 2015). Que fatores podem ter contribuído para esse protagonismo feminino no audiovisual? E isso é perceptível apenas na Baixada Santista ou também num contexto nacional?

a7Sim, penso que é o momento que se reflete no cenário nacional. Bem, a gente tem referências femininas no audiovisual muito importantes que trabalham há anos na nossa cidade, como a Raquel Pellegrini [coordenadora de cinemas da Secult] e que contribuíram com o Curta Santos, como a Andréa Pasquini [cineasta], diretoras recém-formadas pelo Querô e Unimonte, a diretora do Instituto Querô, Tammy Weiss [também coordenadora do SP Film Comission]. Você tem uma questão natural.

A direção de cinema firme e competente, independe se é mulher ou homem, pois o mais importante é a obra. Com o surgimento da Mostra das Minas, incluída na grade do Curta Santos, além da obra ser importante, também há o manifesto dos direitos e do respeito à questão da mulher no Brasil e no mundo.

a5Isso penso que é o papel do festival, em abrir espaços para essas oportunidades e profissionais, e, a nossa cidade tem mulheres realizando, e se posicionando, e utilizando o audiovisual como sua bandeira de discurso enquanto artista. É louvável. E o Curta Santos tem a honra de ter mulheres a frente de sua produção, pois a maioria de quem produz o festival são mulheres [quase dois terços da equipe].

Com a curadoria coletiva, a mostra Olhar Caiçara além das tramas juvenis, ampliou a participação de documentários, principalmente sobre as consequências da desigualdade econômica regional e narrativas sobre pessoas com deficiência. Num país em que a bilheteria nacional se concentra em super-heróis e comédias, como vê razões para o cinema local investir neste outro panorama?

a94Todo curta-metragem é uma possibilidade, um experimento. O curta dá essa flexibilidade para fazer uma obra mais prazerosa, autoral, que não precisa ser institucional ou encomendada pelo mercado. Muitos dos realizadores que conversamos, afirmam que os curtas são os que estão sentindo naquele momento. E se aparecem documentários que falam de pessoas com deficiência ou questão econômica, é porque esses fatores refletem na vida deles, no seu entorno, na cidade.

É muito interessante na nossa região ter essas abordagens do gênero documentário. E no festival, a gente tem a premiação para documentário, reconhecemos o gênero enquanto obra. A gente recebe muitas produções locais e nacionais de documentários, e acredito que é porque as pessoas experimentam os assuntos à sua volta.

a93Pelo que se pode ver, a curadoria coletiva considerou esses assuntos pertinentes para discussões. Claro que se pode futuramente elencar os filmes selecionados para uma mostra de documentários, fazer um recorte, que possa ter outro desenvolvimento pós-exibição [uma discussão]. Pode-se fortalecer mais este gênero, que já ocorre noutros momentos na cidade, como a itinerância do Festival É Tudo Verdade e Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

Na atual edição, o Curta Santos voltou com longas-metragens, manteve a sessão de videoclipes e não contou com a mostra estudantil. E com a volta da Cadeia Velha, passou a dialogar mais com outras linguagens. Este formato agradou o público e deve continuar nos próximos anos ou há vontade para remodelar quais ações?

Percebe-se que as mostras competitivas precisam sempre ter um olhar diferenciado. E a gente ainda quer possivelmente imprimir uma mostra competitiva de longa. Por vezes, fazemos um recorte de ineditismo dos filmes na região, por vezes são escolhidos pelo tema do festival, ou pelo cineasta homenageado. Trata-se de um processo que está em maturação, de como inserir os longas nas próximas edições.

a1Uma grata surpresa foi a mostra Videoclipe Caiçara, e a importância das produções para o audiovisual na região. Existe uma atenção dos realizadores e bandas de se expressarem através do audiovisual, então tivemos um grande número de inscritos. Bem, as produções nesse formato são ricas, em pesquisa, em colocar a música à serviço da imagem e vice-versa, e isso merece uma discussão bem. Quem sabe transformá-la noutro momento como foi a Mostra Curta Cris [sessão de cinema LGBT que hoje é o festival Sansex de Diversidade Sexual]?

A gente não parou e refletiu sobre um outro momento só de videoclipes, mas enquanto essas produções estão no Curta Santos, estamos dando o maior espaço, que é a sala do Cine Roxy, em horário nobre, como noutras mostras. E ver uma sala cheia para assistir a videoclipes é muito bom. Já colocamos noutros formatos [como espaços alternativos, bares e festas], mas os realizadores apostaram nas salas de cinema e a parceira TV Tribuna também entende essa força, consagrando-os com a exibição em programas no fim de ano.

a4Sobre o Curta Escola, de certa forma, a gente não deixou de fazê-la. Continuamos levando escolas e entidades sociais em parceria com o Fundo Social de Solidariedade para o Curta Matinê [sessões estudantis], neste ano, foram quatro sessões. E também há o próprio avanço do movimento audiovisual local, que hoje ministra oficinas para outros públicos.

Desde a 10ª edição, o Curta Santos revê a sua missão e posição dentro da cidade. A gente vê a melhor forma de como exibir a produção regional, nacional e, quem sabe, filmes internacionais. Penso que hoje o principal foco do Curta Santos é não estar engessado em formatos, mas estar aberto para tratar de inovações diretamente em conversas com quem realiza.

Um questionamento constante dos festivais é até que ponto é necessário o caráter competitivo do evento. Se consagraram o passado do evento nestes anos, os troféus devem continuar no futuro do Curta Santos nas próximas edições?

a2Ainda não fizemos a reflexão sobre esse assunto. Alguns realizadores já colocaram ao festival de não ter mais prêmios, ao mesmo tempo, tem realizadores que gostam desse reconhecimento. O troféu é uma singela homenagem a um grande divulgador do cinema em nossa cidade, que é Maurice Legeard, uma referência na arte, na resistência, e receber um prêmio com o nome dele é uma honra, mesmo.

Penso que a reflexão é um pouco maior, não envolve só a premiação, mas também de talvez não ter mais distinção das mostras Olhar Brasilis e Olhar Caiçara, já que as produções têm o mesmo nível de produção. Mas esse momento de discussão é com o próprio movimento audiovisual, e isso a gente ainda não fez.

a1Penso que existe ainda um valor dado ao recebimento do prêmio. E reconhecemos que, se não existisse premiação, poderíamos ter uma mostra mais extensa de filmes, fazer outras discussões que tenham prioridade, mas precisamos amadurecer. É importante sentir o momento, noutras vezes, por exemplo, tínhamos mostras universitária e independente, depois entre documentários e ficções, hoje nacional e regional.

Bem, hoje o nosso principal objetivo é chegar o mais próximo à população em geral, em exibições mais abertas, fora das salas de cinema. Porque geralmente as pessoas que têm determinado conhecimento na área, prestigiam os festivais e todas as sessões são lotas, mas a população, em geral, participa de outra maneira. Às vezes na Internet, às vezes na exibição dos filmes pela TV. Creio que todos os festivais buscam como abrir as ações para toda população, até para que possa entender como o cidadão pensa sobre a obra e o evento.

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