Entenda o contexto: PM faz espetáculo de censura ao teatro na Praça dos Andradas

Por Lincoln Spada 

A luz apagada do poste em uma Praça dos Andradas vazia, sem bancos, crianças a dourar e até uma cadeia fechada. Esta é a pintura à mostra na sala de plantão do 1º D.P. de Santos, observada afinco por um agente público às 22h57. Até então, desde às 19 horas do último domingo (dia 30), dezenas se revezavam em vigílias – uma na frente da delegacia, outra no sarau na própria praça, na Vila do Teatro.

Acervo: Trupe Olho da Rua
Acervo: Trupe Olho da Rua

Ali, na Rua Itororó, a vigília era dupla. Do lado de lá do 1º D.P., quatro viaturas da PM estacionadas e nove policiais dividindo copos de café, curtidas no celular e a rotina – a bola da vez era um rapaz que tentou fugir de bike. Um policial determinou: “o cara era traficante”. Nada tinha a ver com o caso que mobilizava, naquele momento, outras 27 pessoas nos degraus do plantão. Um grupo teatral foi censurado, com cenário e celulares apreendidos e um ator, algemado, não deu às caras desde então.

Um trio de advogados, professores, DJs, artistas de circo e teatro, repórteres. Gente de Santos, Guarujá, São Vicente e Cubatão. De adolescente à meia-idade. Sem distinção de gênero, credo, cor. Um morador em situação de rua atravessou ainda em dúvida: “o Caio ainda tá preso?”. Caio é ator e diretor com mais de 20 anos de carreira na cidade – há 14 anos fundou a Trupe Olho da Rua, e, atualmente representa o segmento no Conselho de Cultura de Santos.

Ameaças antigas

Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal
Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal

O secretário municipal de cultura, Fábio Nunes, travou a conversa mais incisiva do conselho, no último dia 17. As ocupações culturais no Centro, principalmente na Praça dos Andradas, mobilizou mais de 80 artistas em uma reunião que se estendeu por quatro horas. O feito era porque na antevéspera, 4 mil pessoas circularam na ‘A Praça é Nossa’, festa gratuita de discotecagem, adivinhe, na mesma praça.

Caio tomou a palavra: “Há anos, os artistas perceberam o potencial que a praça tem de agregar as pessoas, pelo seu ponto geográfico na cidade, promovendo mais recentemente ações de ativar, avivar esse espaço com eventos de multilinguagens, numa junção de coletivos. É uma ocupação que reúne pessoas de diferentes regiões, idades, faixas sociais”.

Se antes havia um respeito da Guarda e PM, à época o conselheiro citou as ameaças dos agentes públicos na festa. “A qualquer momento eles vão tomar a Vila do Teatro, querer nos prender, nos levar algemados à delegacia”. A razão seria o decreto municipal 6.889/14 que rodou à Guarda disciplinando eventos em vias públicas, exigindo autorização prévia de 45 dias da Secult. Enumera desde registros oficiais do proponente, até atestado de engenharia.

Liberdade constitucional

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Sem o papel da Secult, o simples som na praça é ‘furto de ponto de luz’ – os equipamentos foram para a Vila do Teatro, na sede da Trupe e outros coletivos. “Foi um erro que o decreto tenha sido feito pelo Gabinete do Prefeito, sem passar antes por nossa discussão”, desculpou-se o secretário-adjunto Rafael Leal em relação às sessões do conselho.

Fabião, Rafael e assessores lamentavam a ação da PM no evento cultural e a Prefeitura garantiu à imprensa priorizar nas semanas seguintes uma alternativa jurídica para respaldar as expressões culturais na rua. O tema alcançou a Casa do Povo, onde o futuro presidente do Legislativo, Adilson Júnior, projetou uma lei pró-artistas de rua. Uma permissão pública desnecessária para a diretoria jurídica da Câmara.

Em parecer contrário, ela assegurou: “por imposição constitucional, qualquer manifestação artística em vias e logradouros públicos do município já está autorizada”, desde que respeitado o sossego público e o fluxo no trânsito. É, não havia trânsito na Rua Itororó neste domingo quando Fabião estava na delegacia. Ao recuperar dos guardas o equipamento de som da Trupe – aliás, o mesmo da fatídica festa da resistência -, quem decidiu apreender o material foi a PM, braço do Governo Estadual.

Relatórios de violência

Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal
Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal

A força policial brasileira é a que mais mata no mundo” e “Polícia brasileira mata 54 em 6 dias, e a britânica, 55 em 25 anos” são títulos de reportagens dos principais veículos do Brasil neste ano, a partir dos relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Anistia Internacional. Em São Paulo, um dos casos mais emblemáticos foi os ‘crimes de maio‘, onde boa parte de 505 mortes em bairros de periferia foram atribuídos à PM – a maioria das vítimas eram inocentes.

Do auge da violência policial, surgiu as Mães de Maio, que partilham vivências na Vila do Teatro, prédio municipal gerido há quatro anos por coletivos de música e artes cênicas. Mais movimentos sociais de outros cantos fazem da antiga carrocinha e albergue noturno um reduto de resistência com oficinas, debates e saraus mensais. Neste dia 30, o sarau temático era ‘Trevas – A utilização dos espaços públicos’. A abertura às 18h20 era com a peça ‘Blitz – O Império que nunca dorme‘, da Trupe Olho da Rua.

Em duas horas, o espetáculo aborda a repressão policial, que ao parafrasear Brecht, considerando “um grande divertimento quanto aos tempos de barbárie”. A peça não é novidade na Praça dos Andradas: ali, já houve apresentações em setembro e dezembro de 2015, março, maio e setembro de 2016. Outras sessões aconteceram na Baixada Santista (Santos, São Vicente e Cubatão) e interior paulista, geralmente festivais, circulação do Sesc e eventos de ocupação cultural.

Comédia da Segurança

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Para o Doutor em Teatro na Unesp, Rodrigo Morais Leite, a peça é como um teatro de revista de várias esquetes, que tem como qualidade o humor: “Cenicamente, tudo isso vem à tona por meio de uma gama rica de elementos, que vão das máscaras de animais usadas pelos atores até o andaime posto em cena para servir de guarita ou prisão. Recursos de intervenção direta no ambiente, como simular uma blitz no entorno da Praça dos Andradas, também são utilizados, sempre em uma chave cômica”.

“Alguns dos exemplos da criatividade do grupo são: fábula da Chapeuzinho Vermelho adaptada e com a estrutura textual de boletim de ocorrência; comediante da ‘moda’ com ‘piadas’ preconceituosas com relação aos trabalhadores; acompanhados de refrigerante de cola, coxinha e sensacionalismo”, relata a crítica teatral Simone Carleto, mesmo nomeando ‘Blitz’ como a Comédia da Segurança, já que o espetáculo reflete sobre a militarização policial crescente.

Esta reflexão é proporcionada duplamente pelo Governo Estadual – não só pela violência policial registrada nas reportagens, índices e pesquisas, mas também pela Secretaria de Estado da Cultura. O ProAC – Programa de Ação Cultural patrocinou várias das apresentações da trupe, aliás, vencedora do recente edital de circulação teatral. Tamanho sucesso garantiu 50 espectadores da censura ao espetáculo, na premeditada tarde de domingo – dia de pouco fluxo no Centro, poucos repórteres de plantão, poucos comércios abertos.

Estereotipando o estereótipo

Foto: Luiz Guilherme
Foto: Luiz Guilherme

Além dos carros da Guarda, seis viaturas da PM estacionaram na praça: a repressão reforçou o estereótipo da violência já dita numa peça que mal chegou a cinco minutos. Em vídeo, a Tenente Thalita é a primeira a abordar e interromper o elenco pelas costas. Inicialmente reclamaram do som. “No meio das discussões entre artistas e policiais, um dos PMs reconheceu: ‘o problema é o tom da peça'”. A constatação é do colunista da CBN Santos, BoqNews e Diário do Litoral, o respeitado jornalista local, Marcus Vinícius Batista.

A plateia publicou vídeos e relatos nas redes sociais, circulando situações absurdas, ainda assim sem desacato da trupe. Numa vez, um ator perguntou: “Qual crime?”, e o policial responde: “Ainda não sei!”. Aquele agente público que ofende “Desliga essa porra de hino [nacional]”. Noutra, os policiais discutem entrei si sobre como é a abordagem. Ainda há o guarda que diz: “Não somos de diálogo, somos de cumprir lei”, sem mostrá-la quando questionado. Tem também o PM que diz à uma atriz: “se eu empurrá-la, não é violência. Mas se me empurrar, te dou tiro”.

O espetáculo policial contou com apreensão de equipamentos de som, celular (em averiguação na delegacia até segunda-feira), e demais objetos cênicos, como as bandeiras do Brasil e de São Paulo hasteadas no andaime. Teriam sido elas que atraíram o olhar dos policiais, segundo o boletim de ocorrência. O penúltimo ato, como cita Marcus Vinícius: “Caio estava algemado e cercado por três policiais militares, esses de fardas oficiais. Os policiais colocaram Caio Martinez, como um criminoso, na parte de trás da viatura, e o levaram para o 1º Distrito Policial de Santos”.

Santos, 1964

Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal
Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal

Em seu blog Giz sem Cor, Marcus intitula a sessão com a Praça dos Andradas de 1964. “Os policiais militares tentaram apreender os equipamentos da peça. Não havia alegação alguma. Apenas repetiam o mantra de que os artistas não poderiam retirar seu material da praça”. Em seguida, “Os policiais militares demonstraram sua limitação diante do oxigênio cultural. Não conseguiam respirar diante da piada sobre si mesmos”.

“O que testemunhei hoje, na Praça dos Andradas, oscila entre a ironia, a tragédia e a violência. Ironia porque a praça, tão lembrada pela dificuldade do poder institucionalizado em compreender seu próprio papel como protetor de pessoas e não de patrimônio, deveria representar a liberdade pela sua natureza pública. Liberdade em permitir, como espaço público, os mais diferentes ato de pensamento, ainda mais pela arte, ainda mais pelo teatro, de essência política”.

Caio foi acompanhado ao 1º D.P. por viaturas e parte dos artistas, que, desde então, movimentaram as redes virtuais com seus testemunhos. Outra parte levou a cenografia restante à Vila do Teatro, onde lá decidiram continuar o sarau de contornos fortes sobre a censura governamental. Acrobatas, circenses, rappers, DJs e poetas sustentavam no microfone até o luar: “Temos que resistir!”, “Isso é uma censura à liberdade de expressão!”, “Onde está a democracia?”.

Palco histórico

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Com o passar das horas, produtores e repórteres do Diário do Litoral, do G1, do jornal A Tribuna, da rádio CBN Santos, da TV Tribuna, e da TV Record Litoral contataram os artistas. O Movimento Teatral da Baixada Santista, a Cooperativa Paulista de Teatro, a Rede Brasileira de Teatro de Rua e midialivristas cobriram o caso.

Uma comoção tão forte mobilizou um segmento teatral na Baixada Santista que, até há um mês, estava dividido em diferenças ideológicas. Autores, músicos, dançarinos, produtores culturais, cineastas, fotógrafos, ilustradores. Existe um inimigo em comum a qualquer pessoa que lute pela liberdade de expressão: a censura. A minha timeline estava tomada por mensagens de apoio ao Caio e aos artistas censurados na praça mais simbólica da Cidade.

Palco principal do 58º Festival Santista de Teatro, a Praça dos Andradas já sediou Executivo, Legislativo e Judiciário nos últimos 180 anos, e foi o endereço certo da recente resistência dos artistas locais: pela reabertura do Teatro Guarany há oito anos; pelo nascimento da Vila do Teatro há quatro e, mais recente, a Cadeia Velha como centro cultural de artes integradas e espaço museológico.

O Estado ausente

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Às 22h57, Caio saiu da delegacia com a mesma fantasia de policial-fetiche. Uma farda falsa da cintura para cima. Da cintura para baixo, uma saia preta, meia calça preta rasgada e um coturno da mesma cor. Foi o único fardado a ser aplaudido e abraçado pelo grupo vigilante. Juntos, o mutirão retornou ao sarau da praça erguendo as caixas de som que faltavam.

Com o B.O. na mão, emitido pelo delegado Edmilson Sanches, anotou-se que a PM foi à sessão “averiguar o que parecia ser uma peça” (de fato, era), com “objetos que aparentavam ser objetos” (vulgo, cenografia). No boletim, o registro: “alegam que a peça já tem patrocínio do Governo Estadual”. Assim, confirmando que o próprio Estado que financia, censura a mesma arte.

O documento cita que vai averiguar alguma suspeita de crime. Cita que a irregularidade seria a interpretação das bandeiras inclinadas no cenário, contornadas com caveiras – aliás, estas símbolos do BOPE, ligado à PM do Rio. E também de que, quando Caio conversou que não cometeu crime, “resistiu à prisão”.

De acordo com a Polícia Civil, a razão da censura foi explicitamente outra: “por não gostar do teor da peça“. Ironicamente, a Polícia Militar cita como vítima o próprio Estado, classificado no boletim como “ausente”. Afinal, de que lado estará presente o Poder Público nas próximas manifestações artísticas na nossa praça, cidade e região?

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6 comentários em “Entenda o contexto: PM faz espetáculo de censura ao teatro na Praça dos Andradas”

  1. No seu texto cita “Polícia brasileira mata 54 em 6 dias, e a britânica, 55 em 25 anos”, mas esquece de informar de estudos que mostram que um policial foi assassinado para aproximadamente cada quatro cidadãos mortos pela polícia. Essa matemática é justa? Quantos policiais britânicos foram assassinados?

    O incrível é a falta de capacidade dos artistas em não enobrecer profissão que diariamente dar seu sangue para manutenção da ordem pública.

    Aprendam, não existe a palavra “eu não serei conduzido, pois estou correto”. Mesmo estando dentro da lei, o que não acontecia, é necessária a condução para esclarecimentos junto à autoridade policial.
    Felizmente a maconha é ilegal no Brasil, triste saber que alguns financiadores do tráfico são os falsos intelectuais que constantemente se atritam com a polícia militar. Finalizo com arrogância que surgiu ao ler a falta de respeito e patriotismo dessa peça: BANDO DE MACONHEIRO FALANDO MAL DA POLÍCIA!
    Situações como essa que dilaceram o Brasil. Como se não bastasse a corrupção!

    1. “Aprendam, não existe a palavra “eu não serei conduzido, pois estou correto”. ”
      A liberdade não pode ser afrontada pelo humor de alguns policiais que precisam inventar um motivo para coagir quem está trabalhando.
      Você quer que a polícia seja respeitada, Renato? então comece por você e faça-se respeitar sendo um policial que defende a população mesmo não concordando com ela as vezes.
      Cumpra a lei, policial, assim se dilacera menos este pobre país.

  2. Entendo que todos tem direitos, e se for assim, ninguém tem direito algum

    Pois cada ser pensante, procura seu direito da maneira que acha correto, pra não dizer, que lhe convem (seja por seus ideais, sua linha de pensamento, seu cunho político e social)

    A mídia não é maconheira, sim, mais o que ela faz?

    Apresenta os fatos ocorridos na sociedade ” caos” que vivemos, e nos deixa para avaliarmos se o fato está certo ou errado.

    Só que a mídia também mostra, apresenta, informa os fatos no seu ponto de vista, e muitas vezes concordamos

    Apresentar fatos ( matérias) dizendo que polícia mata 54 em 6 dias é um fato de uma única visão, sem apresentar esta informação de forma mais esclarecedora,
    Ou seja é só um lado da verdade ou do fato.

    Os policiais agiram de forma absurdamente errada, sim, ao meu ponto de vista

    Mais o governo descaradamente os colocou nesta condição quando não avaliou como os policiais (na verdade seus comandantes) iriam agir com esta expressão teatral de uma classe que é considerada hostilizada por muitos na sociedade

    E que este profissional (policiais) vivem à mercê de incoerências do que é correto é incorreto que eles devem fazer

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