Calero x Geddel: Entenda o caso e repercussão entre Congresso, artistas e funcionários do Iphan

Por Lincoln Spada

Nem as polêmicas com ‘Aquarius’ ou as recusas de artistas à Ordem do Mérito Nacional. Nem as bancadas entusiasmadas pela CPI da Lei Rouanet ou o início do racha entre PMDB e PSDB tendo em vista 2018. A saída nesta sexta-feira de Marcelo Calero do Ministério da Cultura foi gerada por consecutivas discussões com o secretário-ministro de Governo, Geddel Vieira Lima – braço-direito na articulação de Temer.

Diplomata, o tucano Calero seguia uma trajetória crescente, presidindo a programação do Rio 450, e caindo nas graças do PMDB carioca a ponto de assumir a Secretaria de Cultura da Cidade Maravilhosa em 2015. O processo de impeachment de Dilma (PT) e a força do partido governista no Rio o impulsionou para Brasília. Lá, só era elogios de Temer, que em cerimônia no último dia 5, garantiu que o mandato de Calero o premiava com “uma noite de sono tranquilo“.

Em um semestre, aproveitou a mobilização dos artistas contra a extinção do MinC, e, na pasta, iniciou as discussões de atualizar a Lei Rouanet (um projeto tramita no Congresso desde 2010). Se por um lado, envolveu-se em polêmicas com demissões na Cinemateca e vaias em festivais, Calero agradou Temer a ponto do ministério receber 40% a mais em 2017 – já que a pasta recebeu cortes nos últimos dois anos, o aumento se refere ao descontingenciamento de despesas.

Relações perigosas

Mas ao mesmo tempo, Geddel (PMDB) telefonava insistindo que Calero desse atenção via Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) à uma construção em área tombada em Salvador. Por lá, Geddel adquiria um imóvel no alto de ‘La Vue’, planejada pela Cosbat – o empreendimento prevê 30 andares, mas só foi autorizado a erguer 13 andares. E haja relação perigosa.

O primo de Geddel defende a empreiteira na Justiça baiana. Na Receita Federal, sócios de Geddel e do presidente do Cosbat já trabalharam juntos em outro empreendimento. A ‘La Vue’ já gerou uma briga de Geddel Vieira Lima com vereadores e o banqueiro Marcos Mariani. Por vezes, a prefeitura e a representação estadual do Iphan – ambos aliados de Geddel – defenderam a obra na totalidade.

Neste domingo, o Iphan e o Instituto de Arquitetos do Brasil garantem o caráter técnico da decisão sobre o prédio. A ‘Costa Espanha’, residencial da Cosbat, também ganhou influências do ministro. “Nosso amigo GVL pede para vc ligar para Luis (presidente da Cosbat). Teve com o baixinho (ACM Neto) e está liberado o Costa Espanha“, está entre as mensagens do sócio da OAS, incluindo o político numa delação premiada da Lava Jato.

Acusando o ex-colega de Esplanada de corrupção, Calero afirmou no último sábado: “Uma situação como essa, de um ministro ligar para outro ministro pedindo interferência em um órgão público para que uma decisão fosse tomada em seu benefício, não é normal e não pode ser vista assim. Não é normal”. Segundo o ex-MinC, Geddel prometeu demitir a presidente do Iphan se não revertesse a decisão em prol à Cosbat. Em entrevistas, Geddel admite as conversas com Calero, mas nega qualquer interesse pessoal.

Irritação e acareação

De acordo com Calero, Temer já estava a par da situação, mas pedia para reconsiderar o possível ‘adeus’. Ao saber das pressões sofridas pelo ex-MinC, o presidente teria dito: “Mas o presidente sou eu, não o Geddel”. O então ministro lamentou: “Só que eu percebi que a pressão ia continuar, então preferi sair”. Por sua vez, o secretário de Governo garante que Temer confia em sua inocência.

Um interlocutor do Planalto diz que o presidente se refere às vontades de Geddel como “uma coisa totalmente desnecessária. O presidente está muito irritado“. E nenhuma decisão a tomar. Coube então ao líder da Comissão de Ética Pública, Mauro Menezes, citar que o tema será pautado em reunião nesta segunda-feira (dia 21), na Presidência da República. Segundo Menezes, todas as vezes que a comissão recomenda a demissão de um gestor, a sugestão é acatada pelo presidente.

Já no Congresso, deputados de oposição vão articular a convocação de Calero e Geddel nas comissões de Desenvolvimento Urbano, de Fiscalização e Controle e de Cultura, para uma espécie de acareação dos dois envolvidos em encontros públicos. Parlamentares do PT e do PCdoB também devem apresentar representações à Procuradoria-Geral da República para analisar o caso.

Iphan e artistas

Em nota, a associação dos servidores do Iphan defendem a posição de Calero. “Importante registrar que esta conduta, de zelar pela prevalência de critérios impessoais nas decisões públicas, também demonstrada pela colega de carreira e Presidente do Iphan, Kátia Bogea, é a que esperamos de nossos dirigentes”. O comunicado aponta que a atitude de Calero e Kátia mantém os servidores “firmes para enfrentar as pressões às quais, nas ações de fiscalização, somos cotidianamente submetidos na difícil tarefa de garantir à sociedade brasileira o direito a sua herança cultural, conforme estabelecido na Constituição Federal”.

Entre os artistas, a repercussão da saída de Calero divide opiniões. Para a presidente do grupo ‘Procure Saber’, Paula Lavigne, “Eles que são do PMDB que se entendam!”. Já o diretor teatral Amir Haddad diz que “quem sabe recupera o amigo”, já que saiu do governo Temer. Para o diretor-presidente da SPCine, Alfredo Manevy, “A relação do governo Temer com a Cultura, que já era frágil e indefinida, agora fica num quadro de maior fragilidade”.

O cineasta Cacá Diegues diz “O Calero assumiu o MinC num momento delicado e, cm inteligência, habilidade e muita serenidade, estava modernizando o ministério e tornando-o mais eficiente”. Presidente da Associação dos Produtores de Teatro, Eduardo Barata relata: “Como cidadão e profissional de cultura, é triste entender que uma pessoa se sente obrigada a se demitir em função de uma pressão de um interesse privado, e não público. Isso é assustador. O Calero é um cara de gestão que assumiu o ministério numa situação crítica e colocou a possibilidade de termos uma ilha no meio de uma confusão política grande. Agora, tudo começa do zero”.

 

Anúncios

Uma opinião sobre “Calero x Geddel: Entenda o caso e repercussão entre Congresso, artistas e funcionários do Iphan”

  1. Comentar o que ? Em um país como o nosso , pessoas públicas misturando interesses privados. É uma vergonha , e o ministro renunciante, como se viu, preferiu a porta de saída a continuar navegando num mar de lama.
    Ah, e ainda querem votar a ANISTIA !
    Que país é esse ?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s