Em três atos, PMs e políticos sugerem versões sobre ação policial contra artistas de rua

Por Lincoln Spada

Para quem acompanha a repercussão sobre a intervenção policial contra os artistas de rua na Praça dos Andradas, em Santos, já deve ter visto a posição emitida pela Polícia Civil ao jornalista da UOL, Miguel Arcanjo Prado, e o relato do ouvidor da PM à TV Cultura – ambos refutam o boletim de ocorrência do dia 30.

De acordo com eles, o ‘teor da peça’ e não ‘os símbolos nacionais’ foram as razões para a Polícia Militar (PM) solicitar apoio da Guarda Municipal para apreender material cênico, celulares da plateia e algemar o diretor teatral Caio Martinez Pacheco, durante sessão do espetáculo ‘Blitz – O Império que nunca dorme’.

A produção da Trupe Olho da Rua já estava em temporada na mesma praça desde 2015 e com verbas do próprio Governo Estadual. No entanto, estas últimas semanas foram marcadas por outros posicionamentos – dessa vez, diretamente de agentes da PM. Afinal, já que vivemos em tempos de slides sem provas, mas com convicção, guardarei o anonimato de quem não fez a manifestação publicamente.

Gonzaga, 19 de novembro de 2016

Uma idosa desgostou de ver jovens apresentando dança de rua na Bulevar Ohton Feliciano, no coração do Gonzaga. Alegando que eles impedem o trânsito de pedestres na larga via, reclamou para a Guarda Municipal (GM). Uma versão aponta que o guarda até respondeu a senhora: “Mas também quer que pare as canções no shopping ou os bares que colocam mesas nas calçadas?”.

Menos original, a resposta da guarda foi tentar apreender a caixa de som do Mad Feeling Crew – afinal, o mesmo local, grupo e equipamento sofreram idêntica ação da GM em setembro. Apoiados por uma roda de espectadores, o grupo se recusou a entregar o som: a dança continuou até o entardecer. Foi o período certo do guarda então solicitar reforço da PM.

Mas quando chegou lá, os policiais foram mais compreensivos do que os guardas. “Eu não vou prendê-los, não. Viu no que deu com a imagem da PM? Sobre o que aconteceu com o teatro de rua na Praça dos Andradas?”. Se não avaliou de modo mais sensato que os colegas da corporação, no mínimo, o PM reconheceu um certo erro na intervenção anterior.

Vila Mathias, 9 de novembro de 2016

Enfim, houve um primeiro encontro entre a Trupe Olho da Rua e a Polícia Militar. A mediação foi feita pela Secretaria da Cultura, em encontro no Centro Cultural Patrícia Galvão. Teve até policial que ofereceu cuscuz. Se a Secult queria aproveitar a reunião para abordar sobre as demais intervenções policiais na Praça dos Andradas (no Conselho de Cultura, artistas de rua garantiram ser ameaçados de detenção), a reunião só tratou do caso do dia 30.

Segundo o secretário Fábio Nunes, a intervenção foi uma situação de exceção da corporação, já que “a ação da PM não foi uma orientação do comando da PM”. A garantia teria vindo do próprio comandante regional, o coronel Ricardo Ferreira de Jesus. Para apurar quem tomou as decisões e tais excessos da corporação, foi aberta uma sindicância interna, a ser concluída na primeira quinzena de dezembro.

Centro, 2 e 5 de novembro de 2016

Dois assessores que não jantam no mesmo partido (nem na mesma cidade) ventilaram uma versão idêntica de que a intervenção da PM foi um ato interno de “trote” à tenente que assumia o turno do fatídico domingo. Eles alegam que nos bastidores da PM na capital, sugerem que a ação teria sido planejada para ter como alvo a policial, que tem por volta dos 25 anos, recém-promovida e recém-saída da Academia da PM do Barro Branco.

Nessa versão, os agentes públicos já conheciam o teor da peça, o histórico de ruídos com os artistas de rua, e provocaram a ação, cientes da possível repercussão contra a tenente, única policial que assina o boletim de ocorrência ao lado do delegado. Alguns espectadores se recordam que, se a maioria dos PMs estavam alterados, ela seria a única que tentava amenizar a situação.

Se há reportagens que até abordem machismo institucional, é incomum notícias de trotes envolvendo os próprios policiais. De qualquer forma, além dos vídeos que circulam nas redes sociais, a PM deve estar apurando todos os possíveis fatores que geraram esta infeliz intervenção contra artistas de rua e sua liberdade criativa e de expressão em Santos.

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