Opinião: Com 463 anos, Sampa é um muro grisalho para grafiteiros

Por Lincoln Spada

Quatrocentona, São Paulo se acomoda cada dia mais grisalha com a nova administração municipal. Comemora 463 anos com pichações no Pacaembu, e em outros cantos, após uma semana de cinquenta tons de cinza cobrir o então turístico e querido maior mural de artes urbanas a céu aberto da América Latina: os 15 mil metros quadrados da Avenida 23 de Maio.

A intervenção compõe o programa Cidade Linda, que além de holofotes, garantiria a tão propagada zeladoria na limpeza urbana e manutenção das calçadas. Amparada na Lei de Crimes Ambientais (9.605/98) de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a gestão do correligionário declarou guerra aos pichadores, mas inclui grafiteiros e muralistas no ninho a apagar da cidade. Assim, como um Midas às avessas, o prefeito Doria descolore tudo o que toca.

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Cores anunciadas

Doria se vestiu de combatente às pichações há um mês, época em que os anúncios ainda eram cinzentos, como o congelamento de tarifas de ônibus e a Virada Cultural em Interlagos. Na época, ressaltou que o muralista Eduardo Kobra coordenaria um programa sobre esta área. O artista negou publicamente intenção ou vontade. Em seguida, o gestor o enfatizou como curador. Mais uma vez, negativa.

Para piorar, o novo secretário de Cultura, André Sturm, iniciou de modo desastrado as falas públicas sobre as bibliotecas e os primeiros encontros com classe artística. Dessa vez, até se preveniu e a Secult fotografou os mais de 70 murais da Avenida 23 de Maio, mas recomendou manter só as imagens de artistas célebres, em detrimento dos grafiteiros locais.

Portanto, a gestão apagou com dinheiro público muitos murais investidos antes com apoio público, e, hoje, com o discurso da avenida estar muito cinza, anuncia que gastará mais verba pública para convidar artistas renomados internacionalmente para oito espaços regularizados da via. O itinerário de uma futura Gotham City seguirá para os Arcos do Jânio.

Pixo é grafite?

A grosso modo, a pichação é uma expressão gráfica publicada sem autorização em qualquer espaço: as marcas do prédio vazio, o “superfaturado” VLT da Baixada Santista, os xingamentos anotados nos sanitários masculinos ou os pedidos de casamento feitos nas ruas – esta até foi recomendada por um jornal. Ou seja, expressão espontânea, apesar de inconstitucional. Só que vou me ater ao outro segmento.

Já o grafite é unânime como arte urbana, uma tela a céu aberto com mesmo tom crítico, vindo da origem do hip hop, mas que hoje já remodela de museus franceses a escolas estaduais. Nesse sentido, o muralismo são as fachadas completas, principalmente em espaços autorizados. Após uma geração,  já são mais bem aceitos socialmente, com ou sem autorização, tendo em vista os efeitos a curto e médio prazo.

Num mundo condicionado às selfies em redes sociais, as artes urbanas garantem olhares curiosos e público fiel ao entorno comercial. De efeito cultural, registra uma faceta da identidade local. No âmbito terapêutico, o colorido em espaços ociosos acolhe os transeuntes. Em políticas públicas, o maior fluxo exige manutenção das calçadas e devida iluminação e segurança pública.

Grey is the new orange

Já visto como ícone da elite empresarial, Doria acena gourmetizando o mercado de sua esposa. A primeira-dama é a artista plástica visada em CPI pela exposição milionária da Lei Rouanet somente para estadunidenses, a partir de benefícios fiscais de empresas. O problema nem é declarar as preferências artísticas, mas de que sua gestão não compreendeu que o grafite ou mural de um artista local tem sua relevância tão igual ou maior de quem já rodou a Europa ou os Estados Unidos.

Pior é a mensagem que o gestor transmite à classe política que agora ele pertence. Se o prefeito da maior capital da América Latina confunde o direito às artes urbanas e à consequente liberdade de expressão, como os outros 5,5 mil municípios brasileiros reagirão ao seu exemplo em suas avenidas principais? Enquanto o Trump ainda se cerca, a gestão Doria escoa verbas públicas com um muro de estranhamento aos grafiteiros e artistas de rua.

 

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