Cantor e compositor debate HIV e preconceito em nova música

Por Gustavo T. de Miranda

Um corpo positivo. Com o objetivo de desconstruir o preconceito que alimenta o vírus social do HIV, o cantor e compositor Silvino lança o clipe da música “Olhos Amarelos”, o primeiro fruto de sua parceria com o produtor musical e maestro Theo Cancello. Neste novo trabalho, o jovem, de 25 anos, defende o diálogo aberto sobre a vida das pessoas que vivem com HIV.

“A questão que fica é: não falarmos sobre HIV/AIDS e permanecer alimentando esse monstro social prejudica só a quem vive com o vírus? A mim parece que atrasa a sociedade como um todo”, explica o cantor e compositor, que é radicado em São Vicente, no litoral de São Paulo.

E a maneira sonora e visual que o artista escolheu para abordar a questão é com leveza, delicadeza e sensualidade. “Neste velho armário novo eu não vou entrar parcelado em dias de aflição”, canta Silvino. “Olhos Amarelos é um canto de afirmação e liberdade. Em que armário te colocaram? O clipe é um convite pra sair dele e ter posse sobre o seu próprio corpo. Este corpo é meu é com ele que eu to passando!”

Silvino é em essência um letrista que vai aprendendo o que for preciso para poder dar vida para suas palavras. O começo concreto para a vida artística aconteceu justamente no momento em que recebeu o diagnóstico reagente para o HIV. “Foram semanas de angústia e recolhimento até saber como estava realmente a minha saúde. E neste momento eu só conseguia pensar: e minha carreira, e os meus projetos, palavras, vontades artísticas engavetadas? Eu só pensava nisso! Sem arte eu não sobrevivo. Eu não saberia fazer outra coisa”, diz o cantor.

Em um cenário cheio de diversidade, o clipe de Silvino tem no elenco uma figura que é referência no cenário teatral nacional, a atriz Renata Carvalho, que também é da Baixada Santista, e atualmente roda o País com o espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”. Na peça, ela representa Jesus de Nazaré, que volta nos dias de hoje como uma travesti. A participação no clipe, ela encara como “um misto de luta, resistência, coragem, empoderamento e arte”.

Para o homem trans Vitor Lourenço, atuar no filme é extremamente empoderador. “A energia dos corpos dos ‘apagados’ ali interagindo, coexistindo e fortalecendo um ao outro. Saí da gravação revigorado, com mais forças para encarrar minhas batalhas e com os olhos ainda mais abertos para as que não me pertencem diretamente”, afirma.

Letra e música

O jovem compõe e escreve desde os 14 anos, ou seja, são mais de dez anos exercitando e elaborando um material que começa a vir a público agora. Também atuou em algumas peças de teatro e curtas-metragens na Baixada Santista e no Rio Grande do Sul. Até a chegada de “Olhos Amarelos”, a expressão artística dele tinha sido pelo meio teatral.

Pouco tempo após receber o diagnóstico, em 2016, o cantor e compositor começou a dar vida à sua carreira musical, ao frequentar a Escola Técnica de Música e Dança Ivanildo Rebouças Filho, o Conservatório Municipal de Cubatão, onde faz o curso fundamental de piano e de coral.

Sem muitos rótulos, os trabalhos de Silvino com o produtor musical Theo Cancello passeiam entre o funk o tradicional!, o hip-hop, o rock, o samba e outros elementos latinos. “Os arranjos são construídos com base na mensagem da letra, dando valor ao grito, à sensualidade, à emoção. Há identificação com a sonoridade tropicalista”, explica o produtor, que foi pianista do musical “Na Bagunça do teu Coração”, com direção musical de Lincoln Antônio e direção-geral de Bibi Ferreira.

“Olhos Amarelos” faz parte de um processo maior, que é o EP “Húmus”, ao qual Silvino tem se dedicado com Cancello. Com canções cuidadosamente escolhidas para falar sobre hoje e, principalmente, para o hoje. “As letras falam sobre a vivência com o HIV, o repensar da vida, sobre a estrutura social que nos ignora e mata. Fala da vivência de uma bicha afeminada que aprendeu a se amar assim. Fala sobre o amor mais profundo e ignorado por nós que é o amor por si, pelo seu corpo, cicatrizes, escolhas… É sobre seguir em frente com tudo aquilo que nos forma”, define o cantor.

Húmus está previsto para ser disponibilizado na integra nas plataformas digitais de música na segunda semana de maio.

Vídeo e arte

O clipe é dirigido por Ygor Oliveira, da produtora de audiovisual Seiva. Ele conta que o processo de construção foi bem interessante. “Começamos a partir para o caminho das metáforas e simbologias nas cenas, cada pequeno detalhe nos quadros carrega em si uma mensagem bem forte”, explica o cineasta.

A diretora de arte do clipe é Micaela Cirino, que também vive com o HIV. Ela teve a transmissão vertical, quando a mãe transfere o vírus para o bebê durante o parto e/ou amamentação. “Pensei para o filme uma estética leve, apesar de estarmos falando de uma das mais agressivas epidemias e do caos que se construiu com ela, que se mantém ate hoje”, argumenta a jovem.

Fechando esse diálogo multiartístico, Silvino conta com a potência criativa do estilista Alexandre Linhares para compor os looks que usa no clipe. Consideradas peças de arte vestíveis, as roupas são caracterizadas por um movimento que tem tudo a ver com as composições. Linhares foi quem assinou o figurino que Elza Soares apresentou na turnê de “A Mulher do Fim do Mundo”.

FICHA TÉCNICA
Direção e edição: Ygor de Oliveira
Direção de fotografia: Jéssica Pereira
Direção de arte: Micaela Cyrino
Direção de moda: Camilla Mendonça
Maquiagem: Luairi Taurini
Produção de moda: Thaís Farias
Produção executiva: Sarah Bauab
Atores: Renata Carvalho, Barbara Braw, Vitor Lourenço, Alexsandre Corrêa
Fotos: Maria Carolina
Silvino veste: H-AL (Alexandre Linhares)
Produzido por: Seiva
Produção musical/piano/guitarra: Theo Cancello
Percussão: Felipe Romano
Baixo: Damares Santos
Baterista: André Pinguin Ruas (do Charlie Brown Jr)

 

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