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Caravana cultural oferece programação gratuita no bairro da Aparecida

Por Secult Santos

A Caravana do Abaré 20 Anos Emcena estará em Santos nos próximos dias 29 e 30, das 15h às 21h, com oficinas culturais, contação de histórias, apresentações de espetáculos teatrais para crianças e adultos, circo e sessão de cinema. A programação, gratuita e envolvendo 30 artistas e técnicos, ocorre em um contêiner com uma grande tenda adaptada, que estará posicionado na Praça Abílio Rodrigues Paz (Praça do BNH), no bairro Aparecida.

Nos últimos dez anos, o projeto já percorreu mais de 350 cidades em todo o País, atendendo mais de um milhão e meio de pessoas. Com uma estrutura moderna, que inclui som, iluminação, tela de cinema, 500 banquetas e uma grande tenda para abrigar a plateia, a caravana apresentará uma variada programação, com a mesma qualidade de salas convencionais de teatro.

O projeto, com classificação livre, é realizado pela Companhia Abareteatro, por meio da Lei Rouanet, e Emcena Brasil. Tem patrocínio da Comgás e apoio da Secretaria Municipal de Cultura (Secult). Confira a programação completa:

SÁBADO (29)

>> 15h – Contação de histórias – A mala estampada
>> 16h – Oficina de Dobradura
>> 17h – Teatro para crianças – Faz de conta que tem… história
>> 19h – Sessão de Cinema
>> 20h – Espetáculo de Circo – A bailarina e o palhaço

DOMINGO (30)

>> 15h – Teatro de Mamulengos e Ventríloquo – Boneco Tonho e o Furdunço no Casamento de Marieta
>> 16h – Oficina de Canto e Encanto
>> 17h – Teatro para crianças – O Reino Bruxólico da Bruxa Serafina Chinfrim
>> 19h – Convidado Local – Grupo Verde Gaio
>> 20h – Teatro para Adultos – A Villa dus Bisurdo

Vencedor do Globo de Ouro integra programação gratuita de cinema no Parque Anilinas

Por Secult Cubatão

Recém-premiado com o Globo de Ouro, “Zootopia” ganha destaque na programação de janeiro de Cubatão. Apontada como a melhor animação de 2016 por correspondentes de 55 países em Hollywood, o filme compõe o cardápio gratuito oferecido pelo Cinema Ticket Cultura no Parque Anilinas, entre 17 e 21 de janeiro (terça-feira a sábado).

O cinema sobre rodas reúne outros blockbusters, como “Kung Fu Panda 3”, “Quarteto Fantástico” e “Jurassic World”. Itinerante, o projeto distribuirá pipoca e refrigerante para as centenas de espectadores cubatenses. Ao todo, são 38 lugares por sessão. Para os interessados, é preciso reservar os ingressos em: http://www.cinematicketcultura.com.br.

Em “Zootopia” (2016), uma coelha policial e uma raposa conhecida por suas infrações formam uma dupla numa metrópole em uma aventura contra preconceitos e em busca de harmonia social. O longa será exibido nos dias 18, 20 e 21, às 14 horas. Já nos dias 17 e 19, as sessões serão reservadas ao Clubinho de Férias da Polícia Militar.

Já em “Kung Fu Panda 3” (2016), o carismático protagonista Po treina os moradores de um vilarejo para enfrentar um malvado vilão. Nos dias 18, 20 e 21, o filme estará em cartaz às 16 horas, sendo que nos dias 17 e 19 as exibições serão para os participantes do Clubinho de Férias da PM.

Por sua vez, a nova saga do “Quarteto Fantástico” (2015) contra o arquirrival Doutor Destino estará em cartaz a partir do dia 18, às 18 horas. Na sequência, às 20 horas, o público poderá conferir “Jurassic Park” (2015), ficção científica em que os domesticados répteis que habitam um parque de diversões podem se tornar ameaça para os visitantes.

O Cinema Ticket Cultura é uma parceria da Ticket com a Kinoplex, viabilizada pelo Ministério da Cultura, com apoio da Prefeitura de Cubatão através da Secretaria Municipal de Cultura. Saiba mais em: http://www.cinematicketcultura.com.br.

 

Oktocerva oferece mais de 20 tipos de cerveja artesanal

Por Catharina Apolinário

No próximo dia 12 de novembro (sábado), a partir das 14h, a Confraria Santista da Cerveja (Conscerva) realizará a segunda edição da Oktocerva. O evento reunirá os produtores de cerveja artesanal caseira da região, além de ofertar opções em gastronomia de rua.

O convite está já em seu terceiro lote de vendas, a R$ 95,00, e dá direito a uma caneca de vidro com tirante, curtir um bom rock’n roll, degustar cervejas artesanais locais (até que acabe o estoque) e água, pois ninguém é de ferro com tamanha diversidade de brejas. O evento acontece no Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Santos.

Segundo Edwar Fonseca, um dos fundadores da Conscerva, o festival surgiu diante do crescimento da confraria, que nasceu com o objetivo de unir cervejeiros e amantes de cervejas. “Resolvemos montar um calendário de cursos, festas, encontros. E com isso queríamos festejar todas as datas possíveis no ano. Trocamos idéias entre 8 cervejeiros, os oito tentáculos do polvo, e fizemos o primeiro encontro em 2015”, explicou.

De acordo com Edmar Gonçalves, produtor da Caiçara Home Brew, o nome Oktocerva não tem relação com Oktoberfest ou com o mês de outubro, como algumas pessoas acreditam. “Okto vem de oktopus, que significa polvo. Os tentáculos, oito no total, representam a união dos cervejeiros santistas”, afirmou. A união destes cervejeiros já rendeu bons frutos para o segmento, que comemora a aprovação de um projeto de lei de incentivo na Câmara Municipal de Santos.

Em Santos, diversos eventos cervejeiros e bares especializados tem feito a alegria daqueles que curtem uma boa cerveja artesanal, mas a Oktocerva é o único festival que conta com cerveja artesanal caseira e reúne um grande número de pessoas. Com a proposta de conscientizar o consumidor para que beba menos, porém, cerveja de qualidade, a Conscerva defende o lema da frase “Beba menos, beba melhor”.

Patrocinadores

O evento é organizado pela Conscerva com o apoio e patrocínio de diversos empreendedores do mercado da cerveja artesanal santista. A cada quinta-feira deste mês um dos patrocinadores sediou o projeto Quinta Sim!, da Conscerva, que consiste na reunião de apreciadores e produtores artesanais de cerveja para compartilhar informações e degustar boas cervejas artesanais. Nesta quinta-feira (10/11) o encontro será realizado na loja Mestre Cervejeiro.

Cervejeiros confirmados que já produziram suas beldades: Alvarez, Bicudo Homebrew, Bruno, Michel e cia (DuLitoral), Douglas (Baldog), Edmar (Caiçara Homebrew), Eduardo (Demonho), Edwar (War), Fabio (Marapa), Felipe Alcover (Monkey Homebrew), Guilherme e Cia (Beer4Friends), José Nogueira e Mellão, Lucas (Lost), Marcio (Dona Dorotéia), JP (Das Onças), Otavio e Cia (Degrü), Pedro, Vitor e Cia (Brejera), Ricardo Rugai (Nosotros), Rodrigo Marum (Turco), Rogerio (Mar e Malte), William Siqueira, Wilton Troiani (Belmiro). Gastronomia de rua: Antojitos (comida mexicana), Varanda dos Espetos (espetos especiais), Quitute pra Iaiá (salgados veganos), Burguer Session (hamburguers especiais), Sanduiche de linguiça artesanal (estilo Choripan com chimichurri e vinagrete) e Tattoo Doces (brigadeiros e doces especiais).

Lei de incentivo

A Conscerva comemora, além da tradicional união dos cervejeiros locais, a aprovação na Câmara Municipal de Santos de projeto de lei (111/2016) de incentivo à produção artesanal de cerveja na cidade, de autoria do vereador Sandoval Soares (PSDB). O projeto está em discussão nos conselhos municipais, que darão parecer ao Executivo municipal.

Repercussão: Políticos e jornalistas abordam caso de censura policial ao teatro em Santos

Por Lincoln Spada

Constantemente as festas e apresentações artísticas na Praça dos Andradas têm sido palco de atuações da Polícia Militar com apoio da Guarda Municipal. Se na festa ‘A Praça é Nossa’, quatro mil pessoas resistiram em continuar a ação, neste domingo, o ator Caio Martinez Pacheco, diretor teatral de ‘Blitz – O império que nunca dorme’, da Trupe Olho da Rua, foi algemado e a apresentação em temporada na Praça há mais de um ano foi censurada pelos agentes públicos.

Elenco e plateia presente denunciou o ato de censura ao espetáculo contemplado pelo próprio Governo Estadual, pois até a intervenção era de que a PM alegava como causa “o tom da peça” satírica às repressões policiais, às 18h20. Apenas no B.O. emitido às 22h57 no 1º D.P. de Santos havia como razão a presença de bandeiras invertidas. O caso ganhou repercussão nacional e políticos já se posicionaram nesta segunda-feira (dia 30).

Em nota, a Secretaria de Estado da Cultura aborda sobre o financiamento via ProAC – Programa de Ação Cultural do espetáculo. “Projetos contemplados são escolhidos por comissões independentes, não havendo qualquer tipo de restrição estética ou de pensamento aos projetos que pleiteiam programas de fomento”.

Nesta manhã, o governador Geraldo Alckmin, disse ao G1 Santos a partir do que ouviu sobre o B.O. do caso: “Claro que a atitude deles [atores] foi de muito mau gosto. Você virar de ponta-cabeça a bandeira brasileira, ridicularizar quem está trabalhando, colocando até sua vida em risco para defender a sociedade, é de muito mau gosto. Agora, liberdade de expressão é liberdade de expressão. Goste ou não goste, é um direito das pessoas”.

Secult e Conselho de Cultura

Para o jornal A Tribuna, o secretário da Cultura de Santos, Fabião Nunes interpreta que toda manifestação cultural tem que ser livre. “Se é uma crítica ou não, a gente não vai fazer curadoria, cerceamento de liberdade” e que “acredita no trabalho dos artistas e tem esse diálogo pleno com os coletivos e movimentos”.

Pelas redes sociais, o assessor técnico da Secult e ex-secretário adjunto da pasta, Vinícius Cesar Sergio afirmou já ter assistido ao espetáculo. “Lamentável o ocorrido ontem com a Trupe e principalmente com Caio Martinez Pacheco com a liberdade de expressão e do pensamento. O fato da crítica bem humorada à PM ser em praça pública e dar acesso direto a uma abordagem desproporcional, reforça o contexto da peça. Uma manifestação legítima, como as muitas outras críticas as corporações feitas em charges, canais da internet e da TV”.

O Conselho de Cultura de Santos emitirá uma nota em prol à liberdade de expressão. Vice-presidente do Conselho de Cultura de Santos, o produtor cultural Jamir Lopes manifestou solidariedade aos artistas. “Atores não são Bandidos!! Todos temos Direitos Culturais e pleno Direito a qualquer manifestação pública. Estas atitudes truculentas e absurda da PM num estado democrático, somente reforçam as criticas e a temática da própria peça teatral Blitz”.

Poder Executivo

Por sua vez, a Prefeitura de Santos informou à imprensa que não houve comunicação prévia sobre a apresentação, mas enfatizou que “a intervenção da PM foi de iniciativa própria”. Sobre a autorização para apresentações em logradouros públicos, informou que está tratando do tema deste o início de outubro.

Reeleito, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa não abordou sobre o caso de censura. O silêncio ao assunto também está nas redes sociais de ex-prefeitos de Santos – e deputados estaduais e federais eleitos na região. Neste período, o coordenador da Câmara Temática de Cultura do Conselho de Desenvolvimento Metropolitano na Baixada Santista, Welington Borges manifestou “todo apoio ao amigo Caio Martinez Pacheco”, destacando o vídeo da censura policial.

Welington Borges é secretário de cultura de Cubatão. Por lá, a prefeita Márcia Rosa também republicou reportagens que destacam o direito à liberdade de expressão, manifestando apoio ao grupo teatral. Ainda na Baixada Santista, o secretário de cultura de São Vicente, Amauri Alves, postou o vídeo de denúncia do grupo teatral sobre a intervenção policial na Praça dos Andradas.

Poder Legislativo

No dia seguinte à intervenção policial, não houve quórum para a sessão na Câmara de Vereadores de Santos. Nas redes sociais, apenas um dos 21 vereadores se posicionou sobre o caso até a manhã desta terça-feira (dia 1º). Encerrando seu mandato no Legislativo, o vereador Evaldo Stanislau (Rede).

“Em Santos o jovem ator Caio Martinez Pacheco é preso porque comete o “crime” da livre expressão! Eu digo não ao arbítrio! Vamos apurar com rigor e resistir. Não podemos abrir mão dos nossos direitos e da democracia”. Noutra nota, “A ação da PM foi de uma inteligência inversamente proporcional à força empreendida na ação. Resultado? A peça de alcance local hoje é tema de debate no Brasil. E da violência (do mau) policial o debate ampliou-se para a volta da arbitrariedade e da censura”.

Já o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) enviou nota: “Em mais uma demonstração de intolerância e despreparo, a Polícia Militar de São Paulo interrompeu neste domingo a apresentação de uma peça de teatro, em Santos, cujo enredo tratava da violência institucional que é cometida contra população. Segundo os policiais, que chegaram a algemar e agredir o ator e diretor do evento, ele “desrespeitava o país”.

Ele evidenciou que a liberdade de expressão é um direito constitucional. “O responsável por esse absurdo deveria imediatamente ter sido autuado pelo desvio de função. Se aceitarmos que o conteúdo de peças de teatro precisam passar pelo crivo do Batalhão na área, então seria preciso discutir a utilidade do poder judiciário. Uma vez que se autorize camburões para levar artistas, a figura de um juiz de direito, me parece, se torna desnecessária. Portanto, esse é claramente um limite que nos separa da barbárie”.

Políticos: Cultura liberta

Na última eleição, oito prefeituráveis concorreram em Santos. Destes, apenas três se posicionaram publicamente – todos em favor dos artistas. Hélio Hallite (PRTB) respondeu em comentários o apoio e solidariedade ao movimento teatral.

Carina Vitral (PCdoB) afirmou “Em uma ação no mínimo descabida, desnecessária e sem propósito. A quem interessa a não ocupação dos espaços públicos pela população através da cultura e arte?”. E Débora Camilo (PSOL) observou: “Querem saber o motivo de tanta repressão? Simplesmente porque a cultura liberta. Todo apoio para aquelas e aqueles que, pela arte, enfrentam o sistema”.

Jornalistas: Liberdade de expressão

Nas mídias, o colunista da Folha de São Paulo, Gregorio Duvivier publicou apoio aos artistas: “Não acabou. Tem que acabar. #CensuraNuncaMais”. Na região, o jornalista e diretor técnico da Fundação Arquivo e Memória de Santos, Sergio Williams fez uma clara defesa ao ator detido, Caio Martinez Pacheco. “Triste diante das cenas vistas na Praça dos Andradas neste final de semana. A arte é uma das formas de expressão que nos permite criticar setores da sociedade que cometem erros. A Polícia Militar, como qualquer órgão, tem bons e maus exemplos. Devemos respeita-la, mas também temos a prerrogativa de critica-la, quando isso for pertinente”.

“Em um Estado Democrático, a livre expressão das ideias é fundamental, seja na forma escrita, falada, cantada ou encenada. Os integrantes do grupo Trupe da Rua tão somente exerciam sua arte, sem violência. Ninguém é obrigado a gostar, mas é preciso respeitar, principalmente a livre expressão das ideias. Tanto é que o espetáculo Blitz tem o apoio financeiro do Governo do Estado de São Paulo, por meio do Proac. E, para obter este apoio, tiveram de apresentar o roteiro, que foi entendido como arte, cultura”.

Na CBN Santos, o editor Oswaldo Sílva Júnior lamentou os atos ocorridos na Praça dos Andradas, questionando, “O governo atacando o próprio governo?”, “A liberdade de expressão está sendo atacada nesse caso?”, “Lamentável, lamentável mesmo. Até porque a população sabe como foi duro conquistar esse direito à liberdade de expressão”.

O repórter do Diário do Litoral, Carlos Ratton, seguiu o mesmo tom: “Nós, jornalistas, temos que prestar apoio a classe teatral de Santos e lutar para que a liberdade artística e de expressão seja mantida. Caso contrário, seremos expectadores dos tempos de trevas que não queremos mais”. Aliás, Ratton mediou com a Trupe Olho da Rua e o presidente regional do Sindicato dos Jornalistas, Glauco Braga, uma coletiva de imprensa na tarde da última segunda-feira.

Entenda o contexto: PM faz espetáculo de censura ao teatro na Praça dos Andradas

Por Lincoln Spada 

A luz apagada do poste em uma Praça dos Andradas vazia, sem bancos, crianças a dourar e até uma cadeia fechada. Esta é a pintura à mostra na sala de plantão do 1º D.P. de Santos, observada afinco por um agente público às 22h57. Até então, desde às 19 horas do último domingo (dia 30), dezenas se revezavam em vigílias – uma na frente da delegacia, outra no sarau na própria praça, na Vila do Teatro.

Acervo: Trupe Olho da Rua
Acervo: Trupe Olho da Rua

Ali, na Rua Itororó, a vigília era dupla. Do lado de lá do 1º D.P., quatro viaturas da PM estacionadas e nove policiais dividindo copos de café, curtidas no celular e a rotina – a bola da vez era um rapaz que tentou fugir de bike. Um policial determinou: “o cara era traficante”. Nada tinha a ver com o caso que mobilizava, naquele momento, outras 27 pessoas nos degraus do plantão. Um grupo teatral foi censurado, com cenário e celulares apreendidos e um ator, algemado, não deu às caras desde então.

Um trio de advogados, professores, DJs, artistas de circo e teatro, repórteres. Gente de Santos, Guarujá, São Vicente e Cubatão. De adolescente à meia-idade. Sem distinção de gênero, credo, cor. Um morador em situação de rua atravessou ainda em dúvida: “o Caio ainda tá preso?”. Caio é ator e diretor com mais de 20 anos de carreira na cidade – há 14 anos fundou a Trupe Olho da Rua, e, atualmente representa o segmento no Conselho de Cultura de Santos.

Ameaças antigas

Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal
Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal

O secretário municipal de cultura, Fábio Nunes, travou a conversa mais incisiva do conselho, no último dia 17. As ocupações culturais no Centro, principalmente na Praça dos Andradas, mobilizou mais de 80 artistas em uma reunião que se estendeu por quatro horas. O feito era porque na antevéspera, 4 mil pessoas circularam na ‘A Praça é Nossa’, festa gratuita de discotecagem, adivinhe, na mesma praça.

Caio tomou a palavra: “Há anos, os artistas perceberam o potencial que a praça tem de agregar as pessoas, pelo seu ponto geográfico na cidade, promovendo mais recentemente ações de ativar, avivar esse espaço com eventos de multilinguagens, numa junção de coletivos. É uma ocupação que reúne pessoas de diferentes regiões, idades, faixas sociais”.

Se antes havia um respeito da Guarda e PM, à época o conselheiro citou as ameaças dos agentes públicos na festa. “A qualquer momento eles vão tomar a Vila do Teatro, querer nos prender, nos levar algemados à delegacia”. A razão seria o decreto municipal 6.889/14 que rodou à Guarda disciplinando eventos em vias públicas, exigindo autorização prévia de 45 dias da Secult. Enumera desde registros oficiais do proponente, até atestado de engenharia.

Liberdade constitucional

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Sem o papel da Secult, o simples som na praça é ‘furto de ponto de luz’ – os equipamentos foram para a Vila do Teatro, na sede da Trupe e outros coletivos. “Foi um erro que o decreto tenha sido feito pelo Gabinete do Prefeito, sem passar antes por nossa discussão”, desculpou-se o secretário-adjunto Rafael Leal em relação às sessões do conselho.

Fabião, Rafael e assessores lamentavam a ação da PM no evento cultural e a Prefeitura garantiu à imprensa priorizar nas semanas seguintes uma alternativa jurídica para respaldar as expressões culturais na rua. O tema alcançou a Casa do Povo, onde o futuro presidente do Legislativo, Adilson Júnior, projetou uma lei pró-artistas de rua. Uma permissão pública desnecessária para a diretoria jurídica da Câmara.

Em parecer contrário, ela assegurou: “por imposição constitucional, qualquer manifestação artística em vias e logradouros públicos do município já está autorizada”, desde que respeitado o sossego público e o fluxo no trânsito. É, não havia trânsito na Rua Itororó neste domingo quando Fabião estava na delegacia. Ao recuperar dos guardas o equipamento de som da Trupe – aliás, o mesmo da fatídica festa da resistência -, quem decidiu apreender o material foi a PM, braço do Governo Estadual.

Relatórios de violência

Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal
Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal

A força policial brasileira é a que mais mata no mundo” e “Polícia brasileira mata 54 em 6 dias, e a britânica, 55 em 25 anos” são títulos de reportagens dos principais veículos do Brasil neste ano, a partir dos relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Anistia Internacional. Em São Paulo, um dos casos mais emblemáticos foi os ‘crimes de maio‘, onde boa parte de 505 mortes em bairros de periferia foram atribuídos à PM – a maioria das vítimas eram inocentes.

Do auge da violência policial, surgiu as Mães de Maio, que partilham vivências na Vila do Teatro, prédio municipal gerido há quatro anos por coletivos de música e artes cênicas. Mais movimentos sociais de outros cantos fazem da antiga carrocinha e albergue noturno um reduto de resistência com oficinas, debates e saraus mensais. Neste dia 30, o sarau temático era ‘Trevas – A utilização dos espaços públicos’. A abertura às 18h20 era com a peça ‘Blitz – O Império que nunca dorme‘, da Trupe Olho da Rua.

Em duas horas, o espetáculo aborda a repressão policial, que ao parafrasear Brecht, considerando “um grande divertimento quanto aos tempos de barbárie”. A peça não é novidade na Praça dos Andradas: ali, já houve apresentações em setembro e dezembro de 2015, março, maio e setembro de 2016. Outras sessões aconteceram na Baixada Santista (Santos, São Vicente e Cubatão) e interior paulista, geralmente festivais, circulação do Sesc e eventos de ocupação cultural.

Comédia da Segurança

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Para o Doutor em Teatro na Unesp, Rodrigo Morais Leite, a peça é como um teatro de revista de várias esquetes, que tem como qualidade o humor: “Cenicamente, tudo isso vem à tona por meio de uma gama rica de elementos, que vão das máscaras de animais usadas pelos atores até o andaime posto em cena para servir de guarita ou prisão. Recursos de intervenção direta no ambiente, como simular uma blitz no entorno da Praça dos Andradas, também são utilizados, sempre em uma chave cômica”.

“Alguns dos exemplos da criatividade do grupo são: fábula da Chapeuzinho Vermelho adaptada e com a estrutura textual de boletim de ocorrência; comediante da ‘moda’ com ‘piadas’ preconceituosas com relação aos trabalhadores; acompanhados de refrigerante de cola, coxinha e sensacionalismo”, relata a crítica teatral Simone Carleto, mesmo nomeando ‘Blitz’ como a Comédia da Segurança, já que o espetáculo reflete sobre a militarização policial crescente.

Esta reflexão é proporcionada duplamente pelo Governo Estadual – não só pela violência policial registrada nas reportagens, índices e pesquisas, mas também pela Secretaria de Estado da Cultura. O ProAC – Programa de Ação Cultural patrocinou várias das apresentações da trupe, aliás, vencedora do recente edital de circulação teatral. Tamanho sucesso garantiu 50 espectadores da censura ao espetáculo, na premeditada tarde de domingo – dia de pouco fluxo no Centro, poucos repórteres de plantão, poucos comércios abertos.

Estereotipando o estereótipo

Foto: Luiz Guilherme
Foto: Luiz Guilherme

Além dos carros da Guarda, seis viaturas da PM estacionaram na praça: a repressão reforçou o estereótipo da violência já dita numa peça que mal chegou a cinco minutos. Em vídeo, a Tenente Thalita é a primeira a abordar e interromper o elenco pelas costas. Inicialmente reclamaram do som. “No meio das discussões entre artistas e policiais, um dos PMs reconheceu: ‘o problema é o tom da peça'”. A constatação é do colunista da CBN Santos, BoqNews e Diário do Litoral, o respeitado jornalista local, Marcus Vinícius Batista.

A plateia publicou vídeos e relatos nas redes sociais, circulando situações absurdas, ainda assim sem desacato da trupe. Numa vez, um ator perguntou: “Qual crime?”, e o policial responde: “Ainda não sei!”. Aquele agente público que ofende “Desliga essa porra de hino [nacional]”. Noutra, os policiais discutem entrei si sobre como é a abordagem. Ainda há o guarda que diz: “Não somos de diálogo, somos de cumprir lei”, sem mostrá-la quando questionado. Tem também o PM que diz à uma atriz: “se eu empurrá-la, não é violência. Mas se me empurrar, te dou tiro”.

O espetáculo policial contou com apreensão de equipamentos de som, celular (em averiguação na delegacia até segunda-feira), e demais objetos cênicos, como as bandeiras do Brasil e de São Paulo hasteadas no andaime. Teriam sido elas que atraíram o olhar dos policiais, segundo o boletim de ocorrência. O penúltimo ato, como cita Marcus Vinícius: “Caio estava algemado e cercado por três policiais militares, esses de fardas oficiais. Os policiais colocaram Caio Martinez, como um criminoso, na parte de trás da viatura, e o levaram para o 1º Distrito Policial de Santos”.

Santos, 1964

Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal
Foto: Dino Filmes/Virada Ilegal

Em seu blog Giz sem Cor, Marcus intitula a sessão com a Praça dos Andradas de 1964. “Os policiais militares tentaram apreender os equipamentos da peça. Não havia alegação alguma. Apenas repetiam o mantra de que os artistas não poderiam retirar seu material da praça”. Em seguida, “Os policiais militares demonstraram sua limitação diante do oxigênio cultural. Não conseguiam respirar diante da piada sobre si mesmos”.

“O que testemunhei hoje, na Praça dos Andradas, oscila entre a ironia, a tragédia e a violência. Ironia porque a praça, tão lembrada pela dificuldade do poder institucionalizado em compreender seu próprio papel como protetor de pessoas e não de patrimônio, deveria representar a liberdade pela sua natureza pública. Liberdade em permitir, como espaço público, os mais diferentes ato de pensamento, ainda mais pela arte, ainda mais pelo teatro, de essência política”.

Caio foi acompanhado ao 1º D.P. por viaturas e parte dos artistas, que, desde então, movimentaram as redes virtuais com seus testemunhos. Outra parte levou a cenografia restante à Vila do Teatro, onde lá decidiram continuar o sarau de contornos fortes sobre a censura governamental. Acrobatas, circenses, rappers, DJs e poetas sustentavam no microfone até o luar: “Temos que resistir!”, “Isso é uma censura à liberdade de expressão!”, “Onde está a democracia?”.

Palco histórico

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Com o passar das horas, produtores e repórteres do Diário do Litoral, do G1, do jornal A Tribuna, da rádio CBN Santos, da TV Tribuna, e da TV Record Litoral contataram os artistas. O Movimento Teatral da Baixada Santista, a Cooperativa Paulista de Teatro, a Rede Brasileira de Teatro de Rua e midialivristas cobriram o caso.

Uma comoção tão forte mobilizou um segmento teatral na Baixada Santista que, até há um mês, estava dividido em diferenças ideológicas. Autores, músicos, dançarinos, produtores culturais, cineastas, fotógrafos, ilustradores. Existe um inimigo em comum a qualquer pessoa que lute pela liberdade de expressão: a censura. A minha timeline estava tomada por mensagens de apoio ao Caio e aos artistas censurados na praça mais simbólica da Cidade.

Palco principal do 58º Festival Santista de Teatro, a Praça dos Andradas já sediou Executivo, Legislativo e Judiciário nos últimos 180 anos, e foi o endereço certo da recente resistência dos artistas locais: pela reabertura do Teatro Guarany há oito anos; pelo nascimento da Vila do Teatro há quatro e, mais recente, a Cadeia Velha como centro cultural de artes integradas e espaço museológico.

O Estado ausente

Foto: Rodrigo Montaldi
Foto: Rodrigo Montaldi

Às 22h57, Caio saiu da delegacia com a mesma fantasia de policial-fetiche. Uma farda falsa da cintura para cima. Da cintura para baixo, uma saia preta, meia calça preta rasgada e um coturno da mesma cor. Foi o único fardado a ser aplaudido e abraçado pelo grupo vigilante. Juntos, o mutirão retornou ao sarau da praça erguendo as caixas de som que faltavam.

Com o B.O. na mão, emitido pelo delegado Edmilson Sanches, anotou-se que a PM foi à sessão “averiguar o que parecia ser uma peça” (de fato, era), com “objetos que aparentavam ser objetos” (vulgo, cenografia). No boletim, o registro: “alegam que a peça já tem patrocínio do Governo Estadual”. Assim, confirmando que o próprio Estado que financia, censura a mesma arte.

O documento cita que vai averiguar alguma suspeita de crime. Cita que a irregularidade seria a interpretação das bandeiras inclinadas no cenário, contornadas com caveiras – aliás, estas símbolos do BOPE, ligado à PM do Rio. E também de que, quando Caio conversou que não cometeu crime, “resistiu à prisão”.

De acordo com a Polícia Civil, a razão da censura foi explicitamente outra: “por não gostar do teor da peça“. Ironicamente, a Polícia Militar cita como vítima o próprio Estado, classificado no boletim como “ausente”. Afinal, de que lado estará presente o Poder Público nas próximas manifestações artísticas na nossa praça, cidade e região?

Com tema ‘Trevas – A Utilização dos Espaços Públicos’, tem sarau na Vila do Teatro

Por Vila do Teatro

Com o tema ‘Trevas – A utilização dos espaços públicos’, a Vila do Teatro realiza o seu tradicional sarau neste domingo (dia 30), a partir das 17h30, na sua sede, na Praça dos Andradas. O evento tem início com a sessão do espetáculo ‘Blitz – O Império que nunca dorme’, da Trupe Olho da Rua. Seguindo a ordem e o progresso nacional, nada mais (in)conveniente que passar por uma blitz (do alemão blitzkrieg, “guerra-relâmpago”, ou ataque repentino), ou ter seus direitos violados pelo Estado.

A opressão que o brasileiro vive hoje nas ruas, seja em meio a manifestações ou indo comprar pão na esquina é levada de forma satírica e mordaz pelo grupo, seja suscitando a discussão sobre a desmilitarização da polícia e o exacerbado militarismo como resquício do período ditatorial ou como diria Brecht “um grande divertimento quanto aos tempos de barbárie”.

Após o espetáculo, às 19 horas, haverá um bate-papo com coletivos artísticos realizadores de ocupações em espaços públicos na Baixada Santista. E, às 21h30, o microfone estará aberto no sarau. Entre as presenças confirmadas, Natt Matt, Usrec – Coletivo de Rap, Raquel Rollo (com batucada poética), Corsários de la Cumbia e Litha Afrontite (Discotecagem), o bar Rabo de Galo e a exibição do curta-metragem ‘Por trás do cartão postal’.