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Cadeia Velha: A véspera da palavra recuada como centro de artes integradas

Por Lincoln Spada

“Adoraria que ficasse como centro cultural, mas não é objetivamente mais possível”, sentenciou José Roberto Sadek, explicitando as fotos dos últimos festivais na Cadeia Velha. Com as imagens na mão, o titular da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) estava diante de um público inesperado no último dia 10, na sede da Agência Metropolitana da Baixada Santista, a Agem.

Às 10 horas da manhã seguinte, a mesma SEC começou o mesmo anúncio como ‘boa notícia’ nas redes sociais, simultaneamente a uma coletiva de imprensa às pressas. O pequeno intervalo garante que a primeira reunião era tão somente um comunicado extraoficial. Tudo resolvido antes, independente da plateia, surpreendentemente de membros de festivais, audiovisual, literatura, teatro, circo, hip hop e fotografia. Não à toa, dos dez artistas e ativistas presentes, apenas três deram a opinião.

A maior parte das três horas do encontro foi protagonizada por gestores políticos. Sadek alegou que a SEC não tem função de manter prédios além de museus, que a pasta e as prefeituras enfrentam uma grande crise financeira, e que preferiu cortar as equipes e unidades regionais da OS Poiesis para repassar a órgãos das capitais (Assessoria Técnica dos Municípios e a própria Poiesis) as parcerias diretas com parte interessada dos demais 644 municípios para envio de oficinas artísticas.

Em seguida, citou que a Agem sairia do aluguel da Vila Mathias para assumir a casa própria governamental: a Cadeia Velha. Além disso, transferiria o único programa estadual de cultura na Zona Noroeste que atende 300 crianças, para usar o horário comercial do patrimônio cultural, otimizando recursos estaduais. Eis o rumo do polo municipal do Projeto Guri. “Ninguém nega que crianças são uma prioridade”, só que seguiu inflexível na cessão de qualquer uma das oito celas para os coletivos artísticos locais. “Não sei se é compatível o [uso do espaço do] Projeto Guri com os artistas [da Baixada Santista]”.

Casa própria de quem?

Rasgando as palavras da SEC destes últimos anos, Sadek não somente desfez os compromissos firmados do Governo Estadual diante da imprensa e das audiências públicas, como negou haver possibilidade dos artistas locais de tão somente ensaiarem ou se apresentarem nos sábados e às noites durante a semana. O mesmo tom irredutível foi adotado pelo subsecretário estadual de Assuntos Metropolitanos, Edmur Mesquita (PSDB). Ambos usaram como metáfora que a Agem e as crianças como vizinhas de um condomínio, e ambos não demonstraram publicamente haver espaço para os primeiros moradores da Cadeia Velha: a comunidade artística.

Alguns ali viram como golpe. Outros, estelionato eleitoral. Já Edmur citou duas vezes o fato como “uma oportunidade de metropolizar a cultura”, embora repetisse mais um par de vezes que “não é competência da Agem gerir um centro cultural”. Justamente alterando o uso do patrimônio que recebeu milhares de visitantes a partir de terem reconhecido como centro regional de artes integradas, conforme promessas do Governo Estadual.

Ali, só em 2016, teve o teatro de mamulengos itanhaense e o circo cubatense, a banda vicentina e o hip hop santista, do Fescete ao Curta Santos, da Sansex ao FESTA, do Mirada ao Festival Valongo. Para ele, a nova fase permitiria definir através da cultura um ponto de vista metropolitano, mas esqueceu que a própria agência e os gestores municipais não têm histórico de diagnósticos do setor. Cancelado o fórum regional de cultura no ano passado, o único evento de debates assessorado pela agência foi em 2009.

Ora desconexos, ora divergentes

Naquela noite, Edmur citou que nesse futuro iminente, seria possível fazer o tão sonhado projeto de circulação de apresentações de grupos locais, o Colar Cultural, discutido há oito anos. Mas não explicou esta utopia, pois o fundo metropolitano não prevê pagamentos de cachês artísticos, vide a Revirada Cultural da agência regional de Campinas. Daí informou que haveria uma sala eventual para exposições e apresentações a ser agendada por um assessor que dialogaria com os artistas locais, porém, exemplificou que as atrações seriam orquestras. Em geral, ligadas às prefeituras.

Entre tantas controvérsias, abordou ser contrário da criação de um já anunciado conselho gestor com a sociedade civil, em especial os artistas que frequentam a Cadeia Velha, pois não via experiências exitosas neste sentido. Então, propôs que a discussão fosse complementada noutro conselho, a câmara temática dos secretários municipais do setor na região – muitos nem conviveram com os 35 anos do prédio como centro de artes integradas.

Por sua vez, o secretário da Cultura de Santos, Fábio Nunes (PSB) propôs de que, dado o convênio das oficinas culturais entre SEC e Secult, ele buscaria aplicar esse valor em ações formativas na Cadeia Velha. Sugeriu de que cada prefeitura empregasse um funcionário para colaborar no espaço como centro de artistas integradas. Até se dispôs a tentar enviar membros da secretaria para ajudar a Agem fora do horário comercial, para os ensaios e apresentações dos coletivos locais. “Assume o prédio. Assume o prédio, cara. Por que não assume o prédio?”, foi a resposta do Sadek. Em dezembro, a Prefeitura recusou a consulta de assumir mais um patrimônio.

Culpa é da crise!

É que se o Governo de SP atravessa uma crise financeira, a Prefeitura de Santos com menor potencial de investimento, já teve redução de verba cultural este ano, de equipe técnica e ainda tem o desafio de abrir outros quatro novos centros artísticos previstos até dezembro. E o custo previsto da Cadeia Velha enquanto extinta Oficina Cultural Pagu era de R$ 1,4 milhão anual. Mesmo se isentassem luz, água ou telefone, a Prefeitura sacrificaria as economias para manter aberto o edifício estadual.

A reunião encerrou com uma rara concordância entre o Fabião e o secretário de Educação e Cultura de Cubatão, Raul Christiano (PSDB), repercutindo as demandas dos artistas presentes. Pelo menos, de que duas celas que foram reformadas e adequadas com tablado para artes cênicas e dança fossem utilizadas pelos artistas locais. Entenderam que a Agem assume o piso superior, e que uma cela seria memorial sobre o patrimônio e a Pagu, ícone dos movimentos artísticos de Santos. Além da indefinição inicial sobre a cafeteria planejada.

Mas ignorar os espaços já adaptados para atender os ensaios e produções dos coletivos regionais? O mais discreto dos gestores, o diretor da Agem, Hélio Hamilton, disse “que há legitimidade na demanda dos artistas que frequentam o prédio”. Enquanto a imprensa focava no Sadek, no Edmur e no Fabião na manhã deste dia 11, Hélio procurou a coordenação polo do Projeto Guri, buscando garantir espaços para os primeiros condôminos seguirem com o fazer cultural na Cadeia Velha.

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Prefeitura de Santos nega unir secretarias de Cultura e Turismo

Por Lincoln Spada

“Não se cogita a junção das duas secretarias”. É assim que a Prefeitura de Santos descarta a possibilidade de unir as pastas de Cultura e Turismo, no próximo mandato de Paulo Alexandre Barbosa. Trata-se de uma resposta à nota de Jairo Sérgio de Abreu, editor e colunista político do BoqNews.

Na edição do último dia 17, o jornalista descreveu que, nos bastidores, o prefeito tende a criar uma secretaria única para atender as duas áreas, tendo à frente o atual secretário de Cultura, Fábio Nunes. O argumento seria a “perspectiva econômica pouco animadora”, situação já descrita pelo próprio governo nas últimas coletivas de imprensa.

No próximo ano, o orçamento municipal prevê que a Secretaria de Turismo reduzirá 18%, de R$ 8,9 mi para R$ 7,3 milhões. Na Secult, a verba cairá 13%, de R$ 33,1 mi para R$ 28,7 milhões. Uma previsão desafiadora, tendo em vista que no próximo ano, a Secult terá que participará da gestão de novos centros culturais no Jardim Castelo, Morro da Penha, Vila Nova, Vila Progresso, e provavelmente da Cadeia Velha de Santos.

Em relação aos demais municípios, os principais problemas na junção de pastas, é que: ou o gestor passa a ter um olhar limitado por ambas as áreas sem se especializar em nenhuma delas, ou ele mistura conceitos de ambas sem respeitar a autonomia de cada uma delas, ou ele observa mais a que têm mais recursos.

Neste último semestre, a secretaria de Turismo é assumida pela jornalista Miriam Guedes. Por sua vez, desde janeiro de 2015, o professor Fabião está à frente da pasta de Cultura. Em relação ao secretariado do próximo ano, a Prefeitura não confirma nomes, somente indicando que “os novos titulares serão definidos nos próximos dias”.

Válter Suman não descarta extinguir Secretaria da Cultura de Guarujá

Por Lincoln Spada

É dado como certo o fechamento da Secretaria da Cultura (Secult) de Guarujá, segundo colaboradores da pasta no atual governo. A informação também foi ventilada durante o fórum 5º CulturalMente Santista. Ao lado de outros gestores, o atual titular do órgão, Odair Dias Filho, comentou da possibilidade de extinção da pasta.

À época, Odair ressaltou a aprovação da lei do Sistema Municipal de Cultura. Tal legislação garante a manutenção de um órgão autônomo e exclusivo de cultura (a Secult), além de conselhos, conferências e fundo municipal, a fim de vincular políticas, programas e verbas entre a cidade e o Governo Federal para o setor.

Atualmente, a Secult já tem verba de R$ 6,5 milhões, o equivalente a 0,7% do orçamento municipal – abaixo das médias estadual e nacional. Na campanha eleitoral, o prefeito eleito Válter Suman (PSB) não incluiu uma única linha sobre cultura em seu primeiro plano de governo, que consta no Tribunal Superior Eleitoral. Ao contrário, reforçou o interesse em reduzir pastas.

A Revista Relevo apurou que a ideia inicial do novo governo é de que a cultura esteja na mesma pasta relacionada a turismo, esportes e lazer. Na transição das prefeituras, estes temas serão discutidos em conjunto nas últimas reuniões (12 e 14 de dezembro). Desde o dia 11 de novembro, a equipe de Válter Suman não confirmou essa possibilidade à Revista Relevo.

Para o Diário do Litoral, o novo prefeito antecipa que o setor deve manter o mesmo orçamento em 2017. Ele também afirmou que buscará parcerias público-privadas. Sobre a possibilidade de extinção da Secult, em nota, Válter informou ao jornal: “esta definição será alvo de estudos técnicos e será devidamente informada aos meios de comunicação em tempo oportuno”.

 

Cultura perde representatividade na próxima Câmara de Santos

Por Lincoln Spada

Os segmentos de cultura de Santos perdem a maioria de seus representantes na próxima gestão na Câmara de Vereadores (2017 a 2020). Se a atual legislatura tinha quatro membros apoiando o setor, os artistas e coletivos devem ter inicialmente o respaldo de apenas dois parlamentares nesses anos futuros: ambos da oposição, Telma de Souza e Chico (PT).

Desde a saída em 2012 do ex-vereador e ex-secretário da Cultura, Reinaldo Martins, os grupos artísticos e festivais tradicionais da cidade se tornaram pautas de projetos de lei e emendas de quatro parlamentares. Futuro vice-prefeito, Sandoval Soares (PSDB) enviou verbas à Secult e criou a Semana da Cultura Caiçara. Prefeiturável na última eleição, Marcelo Del Bosco (PPS) no atual mandato homenageou o Tescom, promoveu audiências e encaminhou projetos sobre políticas culturais.

Não alcançando a reeleição para o Castelinho, Douglas Gonçalves (DEM) e Professor Igor (PSB) foram os vereadores que mais enviaram verbas para eventos dos artistas locais. Entre suas ações, Douglas já destinou recursos ao Festa – Festival Santista de Teatro e criou a Semana Municipal do Jazz. Por sua vez, Igor também colaborou com emendas para o FESTA, o Fescete – Festival de Cenas Teatrais de Santos e o Curta Santos – Festival de Cinema de Santos, além de corpos estáveis do município.

Outros candidatos

Sim, outros vereadores encaminharam emendas para a área da cultura, em geral, para as ações promovidas pela própria Secult. Cacá Teixeira (PSDB) colaborou com a Orquestra Sinfônica e a Escola Livre de Dança; Ademir Pestana (PSDB) para projetos de artes urbanas e capoeira; Sadao Nakai (PSDB) para o departamento de eventos culturais; Professor Kenny (PSDB) e Adilson Júnior (PTB) destinaram recursos respectivamente para a Associação TamTam e Instituto Arte no Dique. Todos esses citados foram reeleitos.

Demais vereadores colaboraram em menor proporção ou pontualmente com o setor cultural. Por exemplo, da atual comissão permanente de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia (Professor Igor, Murilo Barletta e Sérgio Santana), apenas Santana (PR) continuará no Legislativo. Com pouca atuação na área cultural, Sérgio Santana aprovou nos últimos quatro anos o Dia do Teatro, o Dia da Música Gospel e a Semana Cultural do Artista Especial.

Nestas eleições, uma dezena de novos candidatos se apresentaram como representantes do setor cultural. Um grupo que envolvia poeta, músicos, arte-educadora, diretora teatral, servidora pública, entre outros simpatizantes. Em partidos distintos, nenhum conseguiu se eleger – mas, juntos, não teriam votos suficientes à quociente eleitoral. O músico Maurão (PSOL) e o próprio Reinaldo Martins (PT) foram os vices em chapas respectivamente das prefeituráveis do PSOL e do PCdoB, perdendo para o atual prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB).

Perspectiva dos novos vereadores

Com a despedida dos quatros atuais vereadores na Câmara de Santos que mais colaboraram com as demandas da sociedade civil, o histórico da nova composição no Castelinho aponta que somente dois parlamentares estejam mais relacionados às demandas dos artistas locais. A ex-prefeita Telma de Souza (PT) sempre foi uma das maiores colaboradoras com festivais e grupos artísticos nestas últimas décadas, e estava afastada de cargos eletivos desde 2014, quando saiu do papel de deputada estadual. E mesmo estreando no Legislativo, Chico do Settaport (PT) já tem em sua fundação trabalhos próximos à cultura, como projetos de comunicação e economia criativa.

Cadeia Velha: Mais consenso que diferença na primeira audiência

Muito mais consensos do que diferenças foram apontadas na última audiência sobre o projeto de uso da Cadeia Velha de Santos. A administração estadual e a vocação enquanto espaço multiuso foram defendidos por todos os agentes presentes. O encontro promovido pela Câmara Municipal ocorreu na última terça-feira (dia 28) e contou com quase 50 pessoas conforme lista de presença.

“O Movimento Teatral quer o retorno das atividades das Oficinas (Culturais Pagu) como lá já era”, discursou Junior Brassalotti. “Lá era um espaço plural de cursos e atividades para todo e qualquer grupo, de qualquer segmento artístico (…) de modo amplo e irrestrito”. A mesma ideia foi apoiada pelo Agrega Cultura que se relaciona com múltiplas artes, de acordo com Karla Lacerda, “O espaço da Cadeia Velha precisa ser um espaço multicultural, como sempre foi”.

> A Cadeia Velha ao longo dos últimos séculos
> Governo Estadual promove segunda audiência dia 6

20150428_212901Ela “Eu não consigo entender por que não pode voltar a ser o que era? Queremos a volta da (Oficinas Culturais) Pagu”, relembrando o quão foi positiva a Cadeia Velha para a formação do pensamento artístico e cultural dos artistas da Região. Já em nome da Orla Cultural, Beatriz Royer Massonetto, foi a única que não defendeu o retorno da entidade formativa que administrava o espaço.

Beatriz apontou que já está sendo desenvolvido por pessoas do segmento de patrimônio histórico e memória um projeto para a Cadeia Velha enquanto museu. Em contrapartida, afirmou que observar a Cadeia enquanto espaço museológico, a ser preservado e administrado, não exclui que seja um recanto de atividades artísticas. E convidou os segmentos de artes cênicas para continuar essa discussão: “Porque a gente não se une como um espaço plural e todos os segmentos possam trabalhar juntos?”.

Perspectivas políticas

20150428_212836O evento foi uma resposta do vereador Marcelo Del Bosco (PPS) aos constantes pedidos dos artistas em discutirem o rumo do equipamento estadual, patrimônio tombado nacionalmente. “É que quando nós tivemos a oportunidade da Delegacia Regional de Cultura aqui (entre os anos 80 e 90), tivemos um fortalecimento muito forte junto ao Estado. E nós, a cada dia, estamos perdendo força, apoio”, destaca o político.

Foram convidados à mesa representantes da Secretaria do Estado da Cultura – o próprio secretário Marcelo Araújo ligou ao vereador e explicou a ausência -, da Secretaria Municipal da Cultura, do Movimento Teatral e o presidente da Comissão Permanente de Vereadores de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia, Igor Martins (PSB). Este afirmou em nome do partido que é: “tem uma postura em relação à Cadeia Velha de entender que aquilo deva ser um órgão público estatal (estadual) para abranger toda essa região”.

Ainda, o vereador indicou que há um diálogo para ser repassado um departamento ou gabinete à Cadeia Velha de Santos. Por sua vez, o chefe do departamento de Formação e Pesquisa Cultural de Santos, Murilo Netto, reforçou que o papel da Prefeitura é de mediar o diálogo do Governo Estadual e da classe artística. Ainda descartou a hipótese de municipalização do espaço e de qualquer projeto de uso já aprovado para a Cadeia, portanto, de que já havia se confirmado a ida de alguma seção administrativa para o edifício.

Assim, deu a entender que também defende que o projeto de uma Cadeia Velha plural. “Precisamos pensar a cultura de um modo integrado. (…) A cidade tem expoentes em todos os segmentos, na área do teatro, da dança, de patrimônio. A gente não pode cometer o erro de desmerecer o trabalho dos museus em decorrência de outros segmentos”.

Restauro e esvaziamento da audiência

Uma dúvida também permeou os presentes na audiência pública. Junior Brassalotti citou um boato de que estão sendo acrescidos de camada de cal os desenhos encontrados no projeto de restauração pela PJJ Malucelli Arquitetura e Construção Ltda, como iniciais de nomes e até rodapés e bordas decorativas nas salas principais.

Segundo Marcelo Del Bosco, sua assessoria solicitaria informações sobre esta situação. Ao mesmo tempo, ele registrou que a conversa reservada entre o prefeito Paulo Alexandre Barbosa e o Movimento Teatral dias antes da audiência poderia ter esvaziado o ato, já que uma pauta deste encontro foi sobre o destino da Cadeia Velha.

*Lincoln Spada

 

Os diálogos de Fabião em 100 dias na Secult de Santos

Talvez o secretário da Cultura de Santos, Fabião Nunes, não conte mais o tempo em que assumiu a pasta a partir desta quinta-feira (23/abr). Será o fatídico 100º dia, tempo de reflexão e experiência suficiente para adaptação na nova morada. Com a cabeça em praças e artemídia, as mãos sujas de grafite e os pés agitados ao discotecar, o político mantém o bom costume de prestigiar as artes.

07Já com passagem no Legislativo e Executivo, conhece a teoria da boa vizinhança a ponto de aplaudir a posse do petista Ministro da Cultura Juca Ferreira e tratar parcerias com o tucano gestor estadual da pasta, Marcelo Araújo. Os diálogos constantes têm sua razão: nesta última década, é o primeiro secretário da Cultura que difere da sigla do prefeito em Santos.

Militante no PSB, recebeu o cargo em um rearranjo político com o partido apoiando Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). Apesar de chefiar um batalhão de mais de 200 funcionários, não nomeou sua equipe e a secretaria alcança 1,5% dos cofres municipais. Em seus 100 dias, reabriu a reformada Concha Acústica e dá continuidade às conversas com a classe artística com o Plano, a Conferência e a posse do Conselho Municipal de Cultura. Estes dois últimos foram realizados recentemente.

06Por sua vez, o plano é uma de suas metas ao longo da gestão. Ainda uma quinzena de dias após a sua posse, Fabião discursou na Vila do Teatro o que norteará os seus próximos 100, 200, 300 dias enquanto secretário da Cultura. Registro aqui as palavras de Fabião entre os versos do próprio político em sua juventude.

Do nada, tudo veio

Quando alguém falou de movimentos sociais, meu cérebro imediatamente abriu uma busca, tentei escanear o que a gente tem hoje de movimento social legítimo em nosso território. Ou seja, a nossa cidade está numa zona de conforto absurda no ponto de vista da Urbis. Não só do pensamento da arte e da cultura, mas de toda Urbis. Estou tentando me lembrar qual foi o último grande edifício construído, espaço construído, que me falou ‘nossa, adorei esse prédio. Algum arquiteto fez’. A gente não tem isso. Ou seja, existe um apagão da percepção do nosso espaço territorial, que é o que a gente escolheu para viver. (…)

01Essa nebulosidade que a gente vive na cultura santista, ela tem uma origem que é a falta de transparência. (…) É uma falta de transparência nas decisões (do Poder Público). (…) Então seja, quanto a falta de critérios, o Plano vai construir. Ele vai dar uma segurança para o secretário de Cultura de Santos, que talvez não seja eu.

Provavelmente não serei eu, porque espero cumprir meu papel e quando achar que esse papel for cumprido, posso ir embora. Pode ser daqui a dois dias, daqui a cinco anos, daqui a dez anos. Não sei. Isso vai depender do tipo que a gente vai conduzir. O que quero deixar bem claro pra vocês é que a falta de clareza e do diálogo é que gera essa área nebulosa.

Sempre tudo tento explicar

[Na sua avaliação enquanto secretário na época] Existe um desarranjo, uma desordem, é, laboral, onde várias pessoas estão, por exemplo, lotadas em funções que não exercem. Logo alguns segmentos não vão pra frente em nenhum sentido, porque não existe uma cooperação à altura. (…)

Eu estava no MISS (Museu da Imagem e do Som de Santos), que foi a atividade de lançamento de uma exposição, e estava falando com a Carolzinha e com o Felipe do Querô, e falei “Carol, existe vazios culturais”. “Não existe não, Fabião”.

05Vazios culturais no conceito que estou falando é o Estado na sua promoção, no fomento público da cultura ele não chega. Isso existe no Brasil pessoal, não? E existe um vazio onde a cultura produzida nesses lugares não vai a lugar nenhum, fica ali. Então não é que estou falando de um vazio de criação, mas um vazio de comunicação.

E nada creio, nada posso acreditar

Essas respostas (sobre questões culturais) não vai ser o Fabião que vai dar, então estou muito tranquilo, porque a gente vai construir de uma maneira coletiva, de uma maneira colaborativa. E é isso o que pretendo fazer, ou seja, estabelecer critérios. Estou há 16 dias, abri três pastas. É a pasta de demandas individuais, demandas coletivas e demandas internas. São caixas. Porque se eu não tiver essas caixas, eu não tenho como sair da caixa.

Elas são três caixas, mas eu vou ter que conectá-las, porque são tudo a mesma coisa. A demanda individual é a demanda de alguém que quer fazer uma coisa, que tem um entorno, uma família, um filho. Então não ela não é só individual, ela é de um segmento, de um grupo, de um vetor.

08E a demanda coletiva ela é muito mais forte. Aqui, já senti em algumas falas, um anseio maior do cinema – precisamos de mais brasa porque a nossa sardinha não está assando -, porque quem está com a fábrica de carvão é o vetor carnaval. Se a gente estabelecer uma conexão, uma opção de bater de frente com o carnaval, a gente não vai a lugar nenhum.

Porque o carnaval (…) é a maior manifestação cultural do Brasil, ela é. Agora se ela vai continuar, é a gente que vai ter que subverter esta lógica. Eu vejo teatro no carnaval, eu vejo cinema no carnaval, eu vejo artes plásticas no carnaval, ou seja, se a gente ver isso separado, apartado, a gente não vai a lugar nenhum.

Deus é Krishna ou Alá?

03Eu sou um cidadão planetário, não sei se você vai ser, se você quer ser. Hoje estou trabalhando aqui. Acho que a gente tem universidade pública aqui e não é pra santistas, a gente tem universidade pública aqui para entrar no rol das universidades públicas.

Se você for entrar na Unifesp, talvez 2% sejam de pessoas da região, porque nossos santistas estão em Uberaba, em Manaus, na Paraíba. Isso chamo de conexões aéreas, de raízes aéreas, e o mercado é uma coisa que a gente vai ter que debater no plano.

Deus é DNA? Deus sei lá.

02Se vocês me perguntarem: onde tem cultura? A Secult tem o que falar ou não tem? Eu acho que tem. A Escola (de Artes Cênicas Wilson Geraldo) está mal engendrada, está pouca audaciosa, está ruim, precisa melhorar, acho que ela te formou de alguma maneira. (…) Você sabe o que tem que melhorar, você sabe melhor do que eu. Você fez a escola, eu não.

Bem, onde mais tem cultura? Tem no Guarany, tem, deixa eu falar outro lugar bacana, tem no Emissário Submarino? Tem na Vila? Na Arte no Dique? Aí o que eu quero, é eu Secult perguntar para sociedade, onde tem cultura? E aí vai ser uma avalanche de respostas. Aqui tem cultura, aqui tem cultura, aqui tem cultura… Vai ter cultura pra todo lado.

*Lincoln Spada

Fabião Nunes é o novo secretário de Cultura de Santos

O professor Fábio Nunes, o Fabião, será o novo secretário da Cultura de Santos, de acordo com jornais da Região. A Tribuna revelou que o titular da pasta, Raul Christiano, terá sua exoneração anunciada até o próximo sábado, dia 10. Segundo o Jornal da Orla, o secretário “tem dito que aceita com naturalidade a alteração e que já recebeu convites para integrar a equipe do governador Geraldo Alckmin”.

A mudança também é acompanhada da saída da secretária-adjunta, Cristina Barletta. Já o jornalista Luiz Gustavo Klein Carlan foi transferido no último dia 30 do gabinete do prefeito para a coordenação de Museus e Galerias, Departamento de Cine, Teatro e Espaços Culturais de Santos. O atual responsável por este departamento também é jornalista: Murilo Netto, que, por sua vez, vai chefiar o Departamento de Formação e Pesquisa Cultural.

[Errata dia 4/jan às 12h49: errei anunciando que o jornalista Sérgio Willians também sairia da presidência da Fundação Arquivo e Memória de Santos. Ele é diretor técnico. Vera Raphaelli é quem está a frente da instituição]

O novo secretário é uma indicação do PSB, que recém integra a base de governo do prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). A alteração foi confirmada segundo A Tribuna em reunião na manhã do dia 2 de janeiro, em que o partido também garantiu a Secretaria de Meio Ambiente. As posses devem ocorrer na próxima semana.

Gestão de Raul Christiano

01Durante a gestão de Raul Christiano na Secretaria da Cultura, ocorreram a reforma do Teatro Coliseu, primeiro com AVCB em Santos, e o início de obras pontuais no Teatro Gurany e de revitalização do Teatro Braz Cubas. Também começou a revitalização do Teatro Rosinha Mastrângelo e da Concha Acústica, fechados respectivamente desde 2010 e 2001. Houve ainda a modernização do Museu da Imagem e do Som de Santos e projeto teatral no Casa Trem Bélico.

Na formação cultural, a Secult celebrou convênio com a organização social Poiesis – Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura, beneficiando 1200 alunos de atividades artísticas em Santos. Além disso, foram lançados os Portos de Cultura da Caruara, Morro São Bento e Zona Noroeste, sendo este inaugurando o Centro Cultural da Zona Noroeste, onde há destaque para o primeiro cinema público da região e para capacitações de carnavalescos.

Também estão previstos Portos de Cultura na Vila Progresso, na Praça da Paz Universal (Zona Noroeste), na Vila Nova (região do Mercado) e no Morro da Penha. Cada um deles contará com cinema, teatro, biblioteca, cursos e oficinas. Ainda, foi avançada a Lei Municipal de compartilhamento de gestão com Organizações Sociais (OS) nas seguintes áreas:

A música, que compreende a Orquestra Sinfônica Municipal, o Quarteto de Cordas Martins Fontes, a Camerata Villa Lobos, o Coral Municipal e a Orquestra Jovem; a dança, com o Corpo de Baile de Santos, a Escola de Bailado Municipal, a Escola Livre de Dança, a Escola de Dança Contemporânea e a Escola de Dança em Cadeira de Rodas; os cursos e oficinas, que incluem a formação e o desenvolvimento das atividades de iniciação e aperfeiçoamento artísticos, com as bibliotecas de suporte; o Teatro Guarany com a Escola de Artes Cênicas; e o Teatro Coliseu.