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Entrevista: Thamyres Matarozzi avalia Valongo Festival e anuncia centro de artes visuais em 2017

Por Lincoln Spada | Foto de capa: Sara Santis; Foto de perfil: Iatã Cannabrava

Comprometido em revitalizar a região central e portuária de Santos, o Projeto Valongo iniciou o seu processo por meio do festival que reuniu 4 mil pessoas em meados de outubro. Com mais de 70 atividades espalhadas pela região central da Cidade, o evento reuniu mais de 60 coletivos e artistas nacionais e internacionais convidados para uma extensa programação, como exposições de artes visuais, exibições de filmes, workshops, oficinas, entrevistas, rodas de conversa, leitura de portfólios e lançamentos de livros.

d1Assim, já na primeira edição, o evento nasceu com grande porte. Dando continuidade às entrevistas da Revista Relevo com realizadores de festivais na cidade, a diretora do Valongo Festival, Thamyres Matarozzi, avalia o trabalho realizado em outubro, como também os desdobramentos da iniciativa já no próximo ano. Confira a seguir a entrevista virtual na íntegra com a realizadora.

Apesar da crise econômica que interferiu no orçamento do Valongo Festival, ele já nasceu em grande porte. O objetivo é manter esse ritmo em futuras edições e já há uma periodicidade prevista para o evento?

Sim, o objetivo é que o festival aconteça todo ano em outubro. O festival sofreu grande abalo não só devido à crise econômica que assolou o país, mas também pela instabilidade que o setor cultural e ministério da cultura demonstraram ao longo do ano.

Começamos a produzir o festival em dezembro de 2015, mas foram muitos meses até as aprovações nas leis de incentivo acontecerem e as primeiras verbas caírem. Tamanho foi o atraso de cronograma que não sabíamos se o festival aconteceria até a véspera do mesmo. Tivemos menos de um terço da captação prevista, e com isso grandes dificuldades estruturais e contratempos.

Em cinco dias, o festival produzido em poucos meses conseguiu reunir 4 mil pessoas, numa cidade de mais de 400 mil habitantes, e com parte considerável do público sendo de fora da região. Com esses números, é oportuno um investimento futuro do Projeto Valongo em Santos?

Sim! O Projeto Valongo nasce em duas frentes que se complementam e fundem: o Valongo Festival Internacional da Imagem e os Núcleos Permanentes. O festival é a grande celebração que concentra diversas atividades e agentes culturais em um mesmo ambiente, um verdadeiro intensivo de pensamento e reflexão sobre o mundo da imagem, com muitos intercâmbios e grandes dimensões.

Mas grande parte do Projeto Valongo se dá através dos Núcleos Permanentes que são atividades que acontecem ao longo do ano no Valongo. Nosso próximo passo é a abertura do Centro de Pesquisa das Narrativas Visuais do Valongo (Rua Tuiuti, 26) que sediará grande parte dessas atividades, já estamos trabalhando em uma programação que deve ser lançada no começo do próximo ano.

Após o festival, o Projeto Valongo pretende manter um centro de pesquisa sobre a imagem, vindo a sediar graduações ou cursos de extensão universitária. Já há parcerias e até outras ações previstas para o prédio recém-aberto?

Sim, hoje temos parceria com a Unimes que tem nos apoiado desde a concepção do projeto e estamos desenvolvendo junto a eles cursos livres e de extensão para o próximo ano. É importante frisar que também estamos em negociações com outras universidades da Baixada para que sejam desenvolvidos cursos voltados para o setor cultural ou de comunicação e que sejam ministrados no Valongo. Acreditamos na forte aliança entre o setor cultural e educativo, no Projeto Valongo indissociáveis.

Durante o evento, alguns ruídos aconteceram na produção e diálogo com artistas locais. Em seguida, o festival dialogou com eles, mas vocês observam algo de positivo a partir dessa experiência? E há pretensão de estar mais inserido no panorama regional?

Os contratempos sofridos pelo festival foram muitos, típicos de um projeto novo, em novo território. Através do festival passamos a conhecer uma classe artística forte e atuante que nos recebeu muito bem e que infelizmente frustramos por diversas razões. Temos como meta para os próximos anos não só um diálogo maior e mais eficiente, mas também mais trabalho em conjunto tanto em termos de equipe (os fazedores culturais) como em termos artísticos.

Ao mesmo tempo, o Valongo Festival reuniu fotógrafos, roteiristas e editores de outras nacionalidades, como já havia no Paraty em Foco, produzido noutros anos pelo Estúdio Madalena. Qual foi a percepção geral dos profissionais convidados e dos realizadores ao fazer o evento em Santos?

Foi muito positivo. Inclusive os próprios brasileiros que já conheciam Santos, mas um outro lado da cidade, ficaram maravilhados com o que viram. O Valongo é de fato um lugar muito especial, com características únicas e infraestrutura para um projeto como este.

 

Revista Relevo entrevista ex-secretário de cultura de Cubatão, Welington Borges

Por Lincoln Spada

Recentemente, o ciclo do servidor municipal Welington Borges foi completado à frente da Secretaria de Cultura de Cubatão. Ele assumia a função desde 2010. Autor e coautor de livros históricos (desde Afonso Schmidt até a construção da Avenida 9 de Abril), Welington já trabalhou no Arquivo Municipal e em programas para crianças e adolescentes nos anos 80 e 90.

Nos anos 2000, foi o responsável pela Biblioteca e Arquivo Histórico, além de coordenador da criação do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural, órgão em que presidiu até 2011. Historiador com pós-graduação em meio ambiente e turismo, já enquanto secretário de Cultura, ele também interinamente em 2012 assumiu a pasta de Turismo. Em entrevista pessoalmente à Revista Relevo, Welington avalia sobre a atuação da Secretaria da Cultura nestes últimos sete anos.

Durante a atual gestão, foi criado o Cubatão Danado de Bom, que teve a sua periodicidade mediada pela Lei Rouanet. Por que a busca por esse incentivo fiscal e qual o legado do festival para a cidade?

c5Bem, foram quatro edições do Cubatão Danado de Bom, e só a última teve apoio via Lei Rouanet, as demais foram com apoio direto das empresas locais. E, de certa forma, sempre há recursos da própria prefeitura. O evento tem como objetivo sempre valorizar a cultura nordestina, atento em como valorizar a população, o munícipe de origem nordestina, bem mais do que necessariamente atrair turistas.

Além de não ser um evento isolado no calendário, mas de ter o assunto também trabalhado nas escolas durante o ano. Em todas as edições, temos artistas locais, e homenageamos moradores que são nordestinos. Penso que o evento já se consolidou, é uma marca da prefeitura, e se houver interesse do próximo governo, já tem todas as condições de ser realizado com investimento direto ou leis de incentivo da indústria local.

Em 2011, houve a entrega do Novo Anilinas, e desde então, há uma série de ações do Poder Público ou da comunidade por lá, como concertos, cinema, teatros e afroempreendedorismo. Como avalia o parque como espaço de formação de público e neste trimestre ainda são estimadas outras intervenções públicas no espaço, como o cine-auditório no Centro Multimídia?

c1O Parque Anilinas é uma opção de lazer da cidade desde 1979, sempre tendo espaço para os esportes e artes. Quando o governo previu a sua reconstrução, concedeu um espaço privilegiado para a cultura como o centro multimídia. A cidade não tinha salas de cinema há 10 anos. Agora, são duas salas de cinema, salas para oficinas, o vão cultural, tudo concentrado num mesmo espaço.

Neste centro cultural, também há a previsão da sala de teatro, de 350 lugares. Inicialmente seria um auditório, mas entendemos este novo uso para o local, que contou com apoio da própria indústria local, Já contamos com toda a estrutura cenotécnica, o que falta é a parte da acústica, adequações nos camarins e a montagem, por exemplo, já temos as poltronas. Não é possível entregar nesta gestão, mas, esperamos que o próprio governo consiga adequar o teatro, para que seja usado para espetáculos.

c6Principalmente nestes três anos, muitos coletivos culturais surgiram na cidade e passaram a realizar saraus e festas no Pinhal do Miranda, Jardim Casqueiro e Centro. Como a Secult observa esses eventos e as demandas apresentadas pelos participantes? Existe diálogo com esses grupos?

Com certeza. A gente conhece os coletivos e sempre procura ouvi-los e dialogar com eles, como também, oferecer apoio à medida do possível. Às vezes com estrutura de palco, às vezes com apoio logístico.

Cubatão é a cidade que mantém o maior leque de corpos estáveis, como coral, orquestra, banda sinfônica e corpo coreográfico. Qual é a importância desses grupos artísticos para o município e até que ponto os cubatenses se relacionam ou participam dessas organizações?

c7Os corpos estáveis são fundamentais para a cultura na cidade, uma vez, por exemplo, que a Banda Sinfônica existe há mais de 40 anos. São grupos que representam o município: a Banda esteve na Europa, o Coral Zanzalá já esteve em Nova York, a Cia de Dança da Sinfônica foi convidada para ir aos Estados Unidos. Além do mais, a maioria de quem participa dos grupos artísticos, coralistas, instrumentistas e músicos são oriundos da própria comunidade, e também há um intercâmbio com artistas que participam de orquestras e companhias do Brasil e do exterior.

Há 30 anos, discutem sobre a ativação do Teatro Municipal, a centralizar a agenda múltipla de artes cênicas. Desde então, a região já ganhou sete teatros públicos e Cubatão tem um espaço privado. Na visão da Secult, ainda há demanda para um novo teatro na cidade e como será a futura gestão do equipamento?

c8Recentemente, a Prefeitura apresentou um projeto de lei na Câmara de Vereador para conceder a uma ONG, uma instituição, a possibilidade de concluir a obra e explorar o prédio. Tenho certeza de que se pensar no prédio somente como um teatro, é muito difícil conseguir recursos financeiros para a sua manutenção.

Ali, talvez o caminho seja uma parceria, do teatro enquanto junto de uma escola, ou uma faculdade para melhor aproveitar o prédio. Bem, essa foi uma das propostas colocadas à época sobre o uso do espaço. Mas pensar que o Poder Público consegue manter e concluir o edifício, é muito improvável.

Se por um lado a atual gestão descentralizou espaços de leitura e acentua o legado de Afonso Schmidt, a Biblioteca Central ainda necessita de reforma. Que projetos a secretaria desenvolve hoje para o incentivo à leitura e como está a situação das bibliotecas da cidade?

c9Na verdade, a reforma da Biblioteca Central já foi concluída, a partir das adequações apresentadas no projeto técnico do edifício. O problema atual da biblioteca é o Auto de Vistoria do Corpo dos Bombeiros. Tudo que foi apontado pelo Poder Público, foi atendido, mas não era possível atender as primeiras adequações apresentadas pelos bombeiros.

É porque é um prédio da década de 30, e, ali, qualquer ação precisa ser bem pensada, para não descaracterizá-la enquanto patrimônio histórico. Nesta próxima semana, os bombeiros irão verificar o edifício e, se tiver uma avaliação positiva, solicitaremos o AVCB para o reabrirmos, se possível, ainda em dezembro.

A Baixada Santista corresponde a 1% do território estadual, mas 6% dos espaços museológicos, de acordo com o Governo Estadual. O secretário já presidiu o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão, o Condepac. Como a Secult hoje observa a relação com o conselho e houve avanços na preservação da memória da cidade?

c9aO Condepac está em época de mudança de mandato e logo precisará fazer as convocações. Já que a administração está no fim de mandato, talvez seja adequado esperar o novo governo, que pretenderá indicar os seus representantes no conselho, para reativar seus trabalhos.

O Condepac foi criado em 2003, à época presidi a comissão que o instituiu e, depois, presidi o conselho até 2010. Houve muitos avanços, e o Condepac cumpre bem o seu papel, no tombamento de patrimônios, enquanto consultado em intervenções em áreas próximas de tombamentos, em bastante diálogo e respeito pelos órgãos da Prefeitura, do Ministério Público e da sociedade.

Nesta década, a Secult foi uma das maiores defensoras das políticas culturais, articulando encontros e seminários à comunidade artística. Mas como está hoje o panorama do conselho de cultura, fundo de incentivo, e as leis do Sistema e do Plano Municipal de Cultura? Quais foram as maiores conquistas ou entraves da gestão nesta articulação?

Então, não temos o Plano Municipal de Cultura. Já o conselho está desativado. Há dois aos, nós fizemos uma proposta parar mudar a lei, a fim de corresponder com o formato indicado pelo Ministério da Cultura [como Conselho Municipal de Políticas Culturais], mas não foi muito bem entendido por alguns artistas. Por exemplo, a questão paritária, pois até então o conselho só tinha dois membros do Poder Público.

O que pode parecer a princípio como forma de cercear os artistas no debate, na verdade é porque surgiam várias discussões sobre recursos orçamentários, questões jurídicas, e as secretarias de planejamento, de assuntos jurídicos, não estavam representadas no conselho, como também outras essenciais, como educação e comunicação.

Bem, essa modernização foi aprovada agora, com algumas alterações de emendas na Câmara, mas o conselho vai passar a vigorar em janeiro de 2017 conforme a legislação. Até por isso, o fundo que foi criado em 2013, deve ser efetivado agora no novo governo, já que o conselho gestor conta com participação e acompanhamento dos conselheiros de cultura.

 

Entrevista: ‘O teatro poetiza e problematiza seu tempo’, aborda Movimento Teatral sobre o FESTA 58

Por Lincoln Spada | Fotos de Sander Newton

Mais de 8 mil espectadores se concentraram na primeira semana de setembro (dias 1º a 7) na Praça dos Andradas e seus prédios artísticos a fim de participar do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro. Festival de artes cênicas mais antigo em atividade do Brasil, o evento contou com 40 atividades espalhadas na praça, na Cadeia Velha, no Teatro Guarany e na Vila do Teatro. A programação contou com grupos de todo o Estado de São Paulo, com peças infantis e adultas, teatro em palco italiano ou de rua, além de festas, shows, exposições de artes plásticas e visuais, além de outros segmentos culturais.

Com o tema ‘Qual a Democracia que queremos?’, o FESTA 58 foi uma realização do Movimento Teatral da Baixada Santista, contou com apoio da Prefeitura de Santos e Governo do Estado de São Paulo, apoio institucional do Sesc Santos e com os parceiros a Cooperativa Paulista de Teatro, a RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua, a Vila do Teatro, o Diário do Litoral e o Ferreira Filmes. A seguir, a organização do festival, o Movimento Teatral, apresenta o seu posicionamento na entrevista virtual à Revista Relevo.

O primeiro dia do FESTA 58 priorizou uma programação na retomada da Cadeia Velha como centro cultural. Qual a percepção do Movimento Teatral sobre a sua própria participação para a reabertura do prédio?

b7Boa parte das pessoas e grupos que desenvolvem trabalhos pela Região já se apresentou, ensaiou ou tem sua formação ligada àquele espaço, tínhamos o compromisso histórico de lutar pelo espaço. Foi um processo de articulação e união junto de outros segmentos para o embate público da retomada do prédio como centro cultural de artes integradas. O segmento teatral, como todas suas vertentes foi um dos que mais se organizou em torno dessa pauta, levantado desde o fechamento da Cadeia para reforma, até sua reabertura marcada por atrasos e entrega parcial do prédio.

Conseguirmos que o prédio fosse liberado para a realização do FESTA 58 nas suas dependências, com ocupação das celas composta por diversas manifestações culturais, o que mostrou na prática o que todos sabíamos: a vocação plural do espaço para as artes integradas. Esperamos agora da coordenação uma reunião para formação do conselho gestor do prédio juntamente com a sociedade civil, conforme acordado e desburocratização para o uso das dependências pela população e artistas locais para que o Centro Cultural Cadeia Velha seja, novamente, um lugar vivo e de liberdade criativa.

Com o tema ‘Qual a Democracia que queremos?’, o festival ocorreu inteiramente na Praça dos Andradas. Já que os prédios de lá foram palcos de discussões políticas historicamente, a escolha da praça se deu pela temática, pela localização geográfica ou pelo público que os coletivos vêm conquistando com ocupações culturais nesse espaço?

b5Foi isso tudo junto realmente. O período do festival coincidiu com a entrega parcial da reforma da Cadeia Velha, os alunos da Escola de Artes Cênicas (EAC) do Guarany tiveram participação fundamental na organização do evento também, somaram-se às atividades que têm sido realizadas de ocupação na praça a partir da Vila do Teatro.

Foi a primeira vez que todos os espaços culturais dali funcionaram juntos e o festival nunca tinha realizado uma abertura no Guarany ou na própria Cadeia, antiga sede do Movimento. Fica o exemplo para cidade e aos que virão, pois ver aquela praça e seus espaços culturais, o Teatro Guarany da Prefeitura, a Cadeia Velha do Governo do estado, a Vila do Teatro, uma ocupação cultural independente e gestão autônoma e, principalmente, a Praça dos Andradas funcionando juntos pela primeira vez pelo foi histórico.

Pesquisando em Santos, o JLeiva apontou que a população tem como hábito a preferência pela comédia de costumes e stand up. Na contramão, o FESTA 58 apresentou mostras estadual, regional e paralela que, em sua maioria, fogem desse padrão. Por qual razão apostam nesse viés e até que ponto essas peças não distanciam o festival do público?

b2A função de uma ação como o FESTA é ir na contramão disso mesmo. Tivemos um ótimo resultado de público no FESTA, o que indica que tem plateia para todos os tipos de manifestação artística em Santos. A função do teatro não é o puro e simples entretenimento, a televisão e os exemplos que vocês cita acima já cumprem esse papel.

Os espetáculos convidados, por exemplo, tinham um recorte curatorial temático bem definido, o que deu o tom do evento e trouxe o público para esses debates e questões, sinal que as pessoas estão querendo discutir essa tal democracia e ver como os palcos estão representando esse momento de representatividade política, temática tanto do FESTA 58 como do Mirada, só para ficar entre os eventos de artes cênicas, afinal o teatro alienado do seu tempo torna-se irrelevante.

Além do tema do festival, outras duas questões nortearam a maioria das peças da mostra regional: a censura e a segurança pública, abordando desde a ditadura até a repressão policial e o sistema carcerário. Quais fatores no contexto local ou global influenciam este atual panorama teatral?

b0O teatro poetiza e problematiza seu tempo, refletindo em cena questões contemporâneas que estão permeando as discussões e preocupações. Teatro é sempre um farol. Se esses temas estão sendo abordados com mais frequência, é um sinal de tempos maus, pois os artistas, em geral, estão atentos aos sinais do retorno de uma sociedade conservadora e repressora, são nesses momentos em que as instituições falham que o teatro ergue sua espada. Todo mundo tem antenas, mas poucos estão antenados, já diria a poeta.

Com grupos de diferentes cidades de São Paulo, o FESTA 58 propicia um intercâmbio entre os artistas. Também os estudantes de teatro no Senac apresentaram performances e os alunos da EAC colaboraram na produção do evento. Por que é importante que o festival contribua para a aproximação desses diferentes grupos?

b1São momentos de aprendizado e troca efetiva entre os trabalhadores da cultura, porque vemos como nossos companheiros de classe estão refletindo o mundo de acordo com suas filosofias e estéticas através do teatro. Precisamos desse momento para aprender e trazer para cá, grupos com pesquisa e trabalhos desafiadores e instigantes que possam colaborar com nossas pesquisas e formação do olhar. Vendo teatro, aprendo sobre teatro, amplio minha visão sobre a arte em si e sobre o mundo.

Responsável pelo FESTA 58, o próprio Movimento Teatral tem divergências de artistas que não se sentem mais representados. Como os grupos do movimento analisam esta relação e se observa em curto prazo possibilidades de reaproximação ou as diferentes perspectivas são históricas de outros anos?

b2A classe artística é plural e com diversas ramificações. O Movimento Teatral existe com quem se predispõe a participar ativamente das ações, assumindo responsabilidades de realização de ações práticas como próprio FESTA 58 por exemplo ou o Motim [Mostra regional de teatro] e nem sempre as pessoas, pelo seu dia a dia, estão dispostas à enfrentamentos públicos, participar de audiências, ou ativamente do conselho de cultura, reuniões de deliberação de atividades e trabalho em coletivo de forma horizontal ou de participar de exaustivas reuniões com participantes de diferentes correntes de pensamento. Procurar unanimidade não é objetivo e seria até inocente.

Já vimos propostas de movimentos com parte da classe artística, empresários, com pouca interlocução com coletivos artísticos e que não vingaram infelizmente, pois contrapontos são fundamentais. Esse ano por exemplo o festival teria sido inviável sem os alunos da EAC, o que deu outro formato e dinâmica ao FESTA, e colocou a realização evento no colo dos jovens estudantes de teatro de Santos. O novo sempre vem e segue em frente, em movimento. Nas reuniões do Movimento Teatral são feitos chamamentos e todos podem e devem participar de preferência presencialmente, fortalecendo com ideias, críticas e principalmente na prática, com braços e ações.

Entrevista: ‘A Tarrafa Literária está bem inserida no circuito de festivais’, afirma Tahan

Por Lincoln Spada | Foto: Marcus Cabaleiro (capa) e José Luiz Tahan (demais imagens)

Com objetivo de evidenciar a literatura e conquistar novos leitores, aproximando-os de escritores de renome nacional e internacional, a Tarrafa Literária completou a sua oitava edição em setembro de 2016. Entre os dias 21 e 25, o Teatro Guarany e o Sesc Santos receberam a programação gratuita do evento realizado pela Editora Realejo.

a4Ao todo, foram dez mesas de debates, além de atrações infantis e um espetáculo de abertura, protagonizado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão e sua filha, a cantora Rita Gullo. A autora Maria Valéria Rezende, a cartunista Laerte, o editor Mino Carta, o apresentador Paulo Henrique Amorim, o cronista Gregório Duviviver foram alguns dos convidados deste ano.

Em entrevista virtual à Revista Relevo, o idealizador e diretor do festival, José Luiz Tahan, aborda sobre o panorama do evento que compõe o calendário Setembro Criativo em Santos.

Com oito edições, a Tarrafa Literária praticamente consolidou seu formato e público em Santos. Como ela é analisada dentro do panorama estadual ou nacional dos festivais literários?

a8Bom, acredito que essa resposta vem de outros, de fora, mas vamos lá: estamos avaliados e aprovados em veículos do Brasil inteiro, além de termos uma parceria institucional de longa data junto ao Governo do Estado de SP. Estamos bem inseridos no circuito brasileiro de festivais de literatura.

Praticamente se convencionou que o festival perdure cinco dias, iniciando com show, seguindo em torno de 10 mesas no Guarany e com programação infantil, voltada à contação e teatro. Existe vontade de estender a Tarrafa para outros palcos ou com outras linguagens artísticas?

A nossa linguagem é por e pela literatura, apesar de abordarmos muitos segmentos dentro da ficção e da não-ficção tendo um evento múltiplo e de assuntos amplos. A literatura e o livro é um suporte rico e consagrado, podendo sim dar margem desde à música associada e por que não ao teatro? Quando nascido de uma obra literária, essas fusões podem acontecer no futuro.

Este ano, foi inegável que a partir de questões do público ou os próprios autores convidados, parte das mesas abordassem o impeachment e consequências. Até que ponto você vê que a crise político-econômica afeta no processo criativo e na produção de livros no País?

a6O mundo que nos cerca claramente nos atinge, se estamos falando de escritores e pensadores, é claro que vão repercutir e abordar conflitos, seja na sua arte, seja na sua rotina. Alguns devolvem de uma forma mais crítica, outros mais bem humorada, isso é importante, é a história que vivemos.

Noutras vezes, muito se comentava sobre o orçamento do festival, proporcionado em grande parte via incentivo fiscal. Em 2015, o evento contou com metade do patrocínio de 2014. Este ano, houve um orçamento ainda mais reduzido? E como você observa a demonização cada vez mais crescente da Lei Rouanet?

Festivais ou projetos que buscam incentivos de leis sempre tem seus desafios renovados ano a ano, nunca se tem vida fácil. Mas o que você comenta é parte do total, nós não temos a renúncia fiscal como a grande parte que viabiliza o evento, temos mais da metade dos recursos do total vindos de outros apoios, via verba direta mesmo, decidida pelas empresas, instituições ou pessoas que acreditam no evento.

Esse ano, apesar do clima adverso, tivemos bons resultados e discordo de você quanto a demonização da Rouanet, o que houve foram investigações e buscas em cima de produtores desonestos, aliás, que existem em todos os campos da sociedade, os desonestos tem que ser combatidos. A lei Rouanet é bem interessante, e séria, feita também por gente comprometida, de valor.

Revista Relevo entrevista secretário de cultura de Guarujá, Odair Dias Filho

Por Lincoln Spada

Desde que a então secretária de cultura Mariângela Duarte aceitou a candidatura à Assembleia Legislativa de SP, a pasta foi assumida pelo seu adjunto, Odair Dias Filho, em abril de 2014. Aos 40 anos, ele também já presidiu o Film Comission na Cidade, e particia da diretoria do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra.

Assistente social e ex-candidato ao Legislativo pelo PCB, Odair marcou sua gestão com a busca por políticas públicas culturais e a criação de equipamentos e programas descentralizados que ampliassem a viés cidadã da cultura. Em entrevista virtual à Revista Relevo, o atual secretário faz um balanço sobre o mandato durante a gestão da prefeita Maria Antonieta.

As artes urbanas e a cultura negra tiveram relevância na atual gestão da Secult, principalmente com a entrega da Usina de Hip Hop com estúdio municipal. Como se deu a criação deste equipamento e como a Secult observa o panorama deste segmento em Guarujá?

a3A atual gestão da Secretaria de Cultura de Guarujá sempre manteve diálogos constantes com todas as classes artísticas da Cidade, fomentando a Cultura em toda sua plenitude. Em reuniões com o movimento negro e o movimento hip hop, entregamos recentemente a Usina no Hip Hop, em uma área de alta vulnerabilidade social.

O surgimento do equipamento se deu por conta de uma reivindicação e ao mesmo tempo uma necessidade do movimento de expressar sua cultura e sua arte tão importantes nas relações sociais contemporâneas. Diante disso, as intervenções urbanas com ênfase nos quatro elementos do hip hop têm papel relevante na construção de uma sociedade mais justa e na autonomia popular, do jovem negro e da periferia.

O desafio exitoso foi planejar e transformar essas demandas em política pública. Hoje, o equipamento oferece oficinas de Grafite, Aerografia, Dança, Rima, DJ Break Dance, além de um estúdio de gravação próprio. Nos próximos dias, deverá ser publicado um decreto que institui a gestão compartilhada da Usina, com o movimento inclusive na curadoria do estúdio, que em breve será inaugurado.

Após hiato desde 2011, o Teatro Procópio Ferreira foi reaberto há pouco mais de um ano. Neste período, pode-se considerar que o equipamento já retomou as produções artísticas locais e conta com bom público em suas atividades?

a5O Teatro Municipal Procópio Ferreira tem cumprido seu papel no processo de democratização de seu espaço entre as companhias e grupos locais. Por meio de editais, os artistas de teatro, música e dança têm tido a oportunidade de mostrar seu trabalho de forma profissional e com a devida estrutura, que este equipamento completo oferece.

Nesta gestão, um destaque foi o Ateliê Artes do Palco, proporcionado via emenda parlamentar no Congresso. Como a comunidade respondeu ao projeto e até que ponto os deputados da região colaboram com a cultura no âmbito local?

a1O Ateliê Artes do Palco cumpre um importante papel na formação artística inicial e também no uso do seu espaço através de edital. Entendemos que a sua aceitação foi a melhor, pois a população procura sempre participar dos seus cursos.

A Secult ampliou nestes anos a rede de bibliotecas e gibitecas em várias escolas e espaços pela cidade, também realiza concurso literário e um festival municipal para o setor, sendo uma das cidades que mais valoriza este segmento. Que exemplos a secretaria pode demonstrar um possível resultado sobre estas ações de incentivo à leitura?

a1O estímulo à leitura e a produção literária devem ser ferramentas na política pública de cultura e foi explorada de forma constante por esta Administração. A Secult promoveu constantemente festivais literários, como o “Pérolas da Literatura”, feiras de troca de livros, contação de histórias; participação no Pro-ler e ainda as Geladeiras Bibliotecas distribuídas em algumas unidades de saúde do Município.

No atual mandato, a Prefeitura reassumiu a Fortaleza da Barra Grande, a comunidade abriu o Museu Joias da Natureza e ainda há patrimônios públicos a restaurar. Quais são as principais conquistas e entraves do Poder Público em relação aos patrimônios históricos da cidade?

a4A política de Patrimônio Histórico teve seu impulso inicial nessa gestão e caminha de forma ainda tímida, por ser tão especifica. Tivemos grandes conquistas na área, que hoje é coordenada pela secretaria-adjunta, a arquiteta Patrícia Lima, pós-graduada em restauro.

A Fortaleza da Barra virou museu e vem implementando atividades e oficinas constantes em várias áreas de Educação Patrimonial. Além disso, foram aprovados na Agência Metropolitana da Baixada Santista dois projetos de prospecção arqueológica (um da Fortaleza da Barra e um do Forte São Felipe). As licitações estão sendo preparadas.

Outra novidade é a cessão do Forte Itapema restaurado à Prefeitura, pela Receita Federal, sonho antigo da população de Vicente de Carvalho.

Uma discussão frequente na mídia e até em campanhas eleitorais é sobre os Planos Municipais de Cultura. Desenvolvido desde 2014, como está sendo o processo de construção do plano e há previsão dele já estar em vigor até o fim do ano?

a2O Sistema Municipal de Cultura de Guarujá já existe. Temos ainda o Fundo Municipal de Cultura e o Sistema Municipal de Financiamento à Cultura. O próximo passo é a aprovação pela Câmara Municipal, do Plano Municipal de Cultura, que está em fase final pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais e a Secult.

No atual mandato, houve um movimento na cidade sobre a emancipação de Vicente de Carvalho e que haveria pouca participação da Prefeitura na região. No setor cultural, também deveria ter maior descentralização de atividades para a população do distrito?

A Secult tem dois equipamentos culturais em Vicente de Carvalho: a Usina Hip Hop e o Anfiteatro Ferreira Sampaio, que oferecem diversas oficinas e cursos, atendendo centenas de munícipes. Além de ações decentralizadas em praças e equipamentos de outras secretarias.

Cidade vizinha, Santos conta com uma verba periódica de cerca de R$ 350 mil para financiamento para dezenas de grupos artísticos locais desde 2010. Se lá é por bilheteria dos teatros municipais, em Guarujá os prefeituráveis desejam leis de incentivo.  Mas com o atual mandato, a Secult vê demanda e alternativas para edital de fomento à cultura na cidade? Qual seria o modelo mais apropriado?

Com o Sistema de Financiamento à Cultura instituído e o Fundo de Cultura também, a partir do próximo ano, Guarujá terá instrumentos legais para publicação de editais de arte e cultura, atingindo os artistas e grupos da Cidade.

 

Entrevista: ‘A curadoria coletiva foi uma grata surpresa’, avalia diretor do Curta Santos

Por Lincoln Spada

Com o tema ‘Inclassificáveis’, o Curta Santos – Festival de Cinema de Santos teve diferenças pontuais em sua 14ª edição, realizada entre 26 de setembro e 1º de outubro. A recém-aberta Cadeia Velha foi palco do início e encerramento do evento que segue desde 2002 na cidade.

a9Se por um lado não houve o anúncio antecipado de celebridades homenageadas na abertura ou o Curta Escola, por outro se consolidou a Mostra de Longas e ampliou as linguagens artísticas durante o festival que contou, entre suas ações, com o Encontro de Criadores.

Ainda, o movimento audiovisual local [CinemaMêmo e Mostra das Minas] ganhou mais espaço com oficinas e sessões do evento, que reuniu 51 filmes em 16 sessões. A curadoria coletiva entre os inscritos da mostra regional Olhar Caiçara também foi uma novidade. E a avaliação da última edição é abordada em entrevista por telefone com o diretor do festival, Ricardo Vasconcellos.

Esta é a primeira edição que o Curta Santos não homenageia publicamente algum cineasta ou artista reconhecido na cena nacional. Por qual razão houve essa mudança e até que ponto isso afeta a visibilidade e a relação do público com o festival?

a91Bem, a gente não é engessado em formatos. O Curta Santos sempre quando tem uma oportunidade de homenagear ou identificar personalidades que contribuíram para fomento ou cenário do cinema nacional, faz esta homenagem. Neste ano, nós não abrimos publicamente a quem estaríamos homenageando, que foi a Helena Ignez. Ao aceitar compor o júri e ministrar uma atividade conosco, pensamos toda nossa arte visual em cima da imagem dela e, na abertura, ela se sentiu surpresa.

Entregamos o Troféu Maurice Legeard a ela por toda a trajetória que já tem, que tinha a ver com o tema deste ano do festival, ‘Inclassificáveis’. Então não teve o anúncio anterior, mas foi muito mais pela surpresa para a Helena Ignez. Sobre a visibilidade, acho que não reduziu, porque o festival está consolidado, e o que é mais importante [ao público] são as mostras, as produções realizadas em nossa região.

Também neste ano, o evento proporcionou uma curadoria coletiva e realizadores locais passaram a dar oficinas, junto de Fernando Timba, Helena Ignez e Di Moretti. O festival prevê ou prepara em curto prazo maior participação dos cineastas locais também na gestão do Curta Santos?

a3É uma consequência natural. Aqui na região, temos grandes profissionais, e estão despontando, não só no universo audiovisual, mas que também atuam em outras áreas. Temos como exemplo, o Rafael Gomes [cineasta, diretor teatral, dramaturgo e roteirista], que já participou do Curta Santos como jurado e realizador. E de dois anos pra cá, a gente percebeu que o movimento audiovisual [CinemaMêmo] ganhou corpo, fala e participação, e por que não, que os seus integrantes estejam no festival da cidade?

A gente fez o convite ao CinemaMêmo e, em comunhão, escolheram pessoas para ministrar atividades, e as atividades ocorreram na Oficina Pagu, na própria Cadeia Velha, e nos morros. Alguns já desenvolviam essas atividades formativas no Curta Escola [oficina audiovisual para alunos do Ensino Fundamental], quando estavam na faculdade.

a95Em relação à curadoria, foi um experimento. Noutros anos, a gente já fez a curadoria da Mostra Olhar Caiçara com a equipe da organização, com pessoas de fora, com gente da própria cidade, dentro da área de cinema, com e sem a nossa participação… E percebemos na escuta do próprio movimento, que a curadoria poderia ser mais democrática, então a gente entendeu que quem deveria essa escolha do Olhar Caiçara eram os próprios realizadores.

Para nós, foi uma grata surpresa. Foram quase oito horas por dia assistindo a quase 50 filmes. E a gente percebeu que curtiram muito, os realizadores vieram [só houve desistência de cerca de 15% entre os 60 inscritos]. Como a gente sempre falou, somos abertos para sugestões, conversas, tanto de grade, quanto de formato para as edições do Curta Santos.

Nas mostras caiçaras, percebe-se ter cada vez mais produções de mulheres cineastas (36% ante 22% dos selecionados em 2015). Que fatores podem ter contribuído para esse protagonismo feminino no audiovisual? E isso é perceptível apenas na Baixada Santista ou também num contexto nacional?

a7Sim, penso que é o momento que se reflete no cenário nacional. Bem, a gente tem referências femininas no audiovisual muito importantes que trabalham há anos na nossa cidade, como a Raquel Pellegrini [coordenadora de cinemas da Secult] e que contribuíram com o Curta Santos, como a Andréa Pasquini [cineasta], diretoras recém-formadas pelo Querô e Unimonte, a diretora do Instituto Querô, Tammy Weiss [também coordenadora do SP Film Comission]. Você tem uma questão natural.

A direção de cinema firme e competente, independe se é mulher ou homem, pois o mais importante é a obra. Com o surgimento da Mostra das Minas, incluída na grade do Curta Santos, além da obra ser importante, também há o manifesto dos direitos e do respeito à questão da mulher no Brasil e no mundo.

a5Isso penso que é o papel do festival, em abrir espaços para essas oportunidades e profissionais, e, a nossa cidade tem mulheres realizando, e se posicionando, e utilizando o audiovisual como sua bandeira de discurso enquanto artista. É louvável. E o Curta Santos tem a honra de ter mulheres a frente de sua produção, pois a maioria de quem produz o festival são mulheres [quase dois terços da equipe].

Com a curadoria coletiva, a mostra Olhar Caiçara além das tramas juvenis, ampliou a participação de documentários, principalmente sobre as consequências da desigualdade econômica regional e narrativas sobre pessoas com deficiência. Num país em que a bilheteria nacional se concentra em super-heróis e comédias, como vê razões para o cinema local investir neste outro panorama?

a94Todo curta-metragem é uma possibilidade, um experimento. O curta dá essa flexibilidade para fazer uma obra mais prazerosa, autoral, que não precisa ser institucional ou encomendada pelo mercado. Muitos dos realizadores que conversamos, afirmam que os curtas são os que estão sentindo naquele momento. E se aparecem documentários que falam de pessoas com deficiência ou questão econômica, é porque esses fatores refletem na vida deles, no seu entorno, na cidade.

É muito interessante na nossa região ter essas abordagens do gênero documentário. E no festival, a gente tem a premiação para documentário, reconhecemos o gênero enquanto obra. A gente recebe muitas produções locais e nacionais de documentários, e acredito que é porque as pessoas experimentam os assuntos à sua volta.

a93Pelo que se pode ver, a curadoria coletiva considerou esses assuntos pertinentes para discussões. Claro que se pode futuramente elencar os filmes selecionados para uma mostra de documentários, fazer um recorte, que possa ter outro desenvolvimento pós-exibição [uma discussão]. Pode-se fortalecer mais este gênero, que já ocorre noutros momentos na cidade, como a itinerância do Festival É Tudo Verdade e Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

Na atual edição, o Curta Santos voltou com longas-metragens, manteve a sessão de videoclipes e não contou com a mostra estudantil. E com a volta da Cadeia Velha, passou a dialogar mais com outras linguagens. Este formato agradou o público e deve continuar nos próximos anos ou há vontade para remodelar quais ações?

Percebe-se que as mostras competitivas precisam sempre ter um olhar diferenciado. E a gente ainda quer possivelmente imprimir uma mostra competitiva de longa. Por vezes, fazemos um recorte de ineditismo dos filmes na região, por vezes são escolhidos pelo tema do festival, ou pelo cineasta homenageado. Trata-se de um processo que está em maturação, de como inserir os longas nas próximas edições.

a1Uma grata surpresa foi a mostra Videoclipe Caiçara, e a importância das produções para o audiovisual na região. Existe uma atenção dos realizadores e bandas de se expressarem através do audiovisual, então tivemos um grande número de inscritos. Bem, as produções nesse formato são ricas, em pesquisa, em colocar a música à serviço da imagem e vice-versa, e isso merece uma discussão bem. Quem sabe transformá-la noutro momento como foi a Mostra Curta Cris [sessão de cinema LGBT que hoje é o festival Sansex de Diversidade Sexual]?

A gente não parou e refletiu sobre um outro momento só de videoclipes, mas enquanto essas produções estão no Curta Santos, estamos dando o maior espaço, que é a sala do Cine Roxy, em horário nobre, como noutras mostras. E ver uma sala cheia para assistir a videoclipes é muito bom. Já colocamos noutros formatos [como espaços alternativos, bares e festas], mas os realizadores apostaram nas salas de cinema e a parceira TV Tribuna também entende essa força, consagrando-os com a exibição em programas no fim de ano.

a4Sobre o Curta Escola, de certa forma, a gente não deixou de fazê-la. Continuamos levando escolas e entidades sociais em parceria com o Fundo Social de Solidariedade para o Curta Matinê [sessões estudantis], neste ano, foram quatro sessões. E também há o próprio avanço do movimento audiovisual local, que hoje ministra oficinas para outros públicos.

Desde a 10ª edição, o Curta Santos revê a sua missão e posição dentro da cidade. A gente vê a melhor forma de como exibir a produção regional, nacional e, quem sabe, filmes internacionais. Penso que hoje o principal foco do Curta Santos é não estar engessado em formatos, mas estar aberto para tratar de inovações diretamente em conversas com quem realiza.

Um questionamento constante dos festivais é até que ponto é necessário o caráter competitivo do evento. Se consagraram o passado do evento nestes anos, os troféus devem continuar no futuro do Curta Santos nas próximas edições?

a2Ainda não fizemos a reflexão sobre esse assunto. Alguns realizadores já colocaram ao festival de não ter mais prêmios, ao mesmo tempo, tem realizadores que gostam desse reconhecimento. O troféu é uma singela homenagem a um grande divulgador do cinema em nossa cidade, que é Maurice Legeard, uma referência na arte, na resistência, e receber um prêmio com o nome dele é uma honra, mesmo.

Penso que a reflexão é um pouco maior, não envolve só a premiação, mas também de talvez não ter mais distinção das mostras Olhar Brasilis e Olhar Caiçara, já que as produções têm o mesmo nível de produção. Mas esse momento de discussão é com o próprio movimento audiovisual, e isso a gente ainda não fez.

a1Penso que existe ainda um valor dado ao recebimento do prêmio. E reconhecemos que, se não existisse premiação, poderíamos ter uma mostra mais extensa de filmes, fazer outras discussões que tenham prioridade, mas precisamos amadurecer. É importante sentir o momento, noutras vezes, por exemplo, tínhamos mostras universitária e independente, depois entre documentários e ficções, hoje nacional e regional.

Bem, hoje o nosso principal objetivo é chegar o mais próximo à população em geral, em exibições mais abertas, fora das salas de cinema. Porque geralmente as pessoas que têm determinado conhecimento na área, prestigiam os festivais e todas as sessões são lotas, mas a população, em geral, participa de outra maneira. Às vezes na Internet, às vezes na exibição dos filmes pela TV. Creio que todos os festivais buscam como abrir as ações para toda população, até para que possa entender como o cidadão pensa sobre a obra e o evento.

Revista Relevo entrevista secretário de cultura de São Vicente, Amauri Alves

Por Lincoln Spada

Um dos principais nomes da trajetória da Encenação da Fundação da Vila de São Vicente, Amauri Alves participou da produção das primeiras edições dos anos 80, foi um dos articuladores da sua recriação em lei municipal nos anos 90, e, na mesma década, capitaneou o atual formato do maior teatro em areia de praia do mundo: atores globais, mil atores da comunidade, temporada de sessões, etc.

Premiado internacionalmente como diretor da Cia Histórias do Baú, Amauri assumiu a Secult na virada do milênio, durante os ‘500 anos do Brasil’ – época em que as ações culturais evidenciaram historicamente a Cidade. Desde que Bili chegou a Prefeitura em 2013, Amauri retornou à pasta. E em entrevista virtual à Revista Relevo, o gestor aborda sobre a atuação de uma das raras secretarias que não mudou o titular durante todo o mandato do prefeito.

Na atual gestão, a Secult conseguiu reabrir as Oficinas Culturais Prof. Oswaldo Névola Filho e manter diversas atividades formativas, seja convênio com OSs, comissionados, professores voluntários ou parcerias com coletivos da cidade. A transferência do prédio foi benéfica? E a partir das experiências, qual seria o melhor modelo de gestão para o local?

a8A adequação do espaço com conforto, acessibilidade, praticidade e segurança foi essencial para a realização das atividades nas Oficinas Culturais durante nossa gestão. O local atraiu centenas de interessados nas atividades formativas, eventos e apresentações artísticas.

Sobre o modelo de gestão, acredito que uma equipe de técnicos da Secretaria da Cultura pode gerenciar as oficinas em parceria com uma OS, que efetuaria as contratações dos professores e atividades e compra de materiais de consumo. Nesse formato, temos agilidade para substituir modalidades, fornecer material para o desenvolvimento das atividades e programar apresentações artisticas.

Já é muito forte a relação da Encenação de São Vicente com o calendário municipal e a Secult. O secretário já iniciou com elas nos anos 80 e, nestes anos, dirigiu-a enquanto musicais. Neste ano, a crise financeira gerou o cancelamento da edição e o IHGSV decidiu criar o seu próprio evento na sede. Como a Secult vê a alternativa dada pelo instituto e como observa a gestão e o rumo das próximas edições?

Toda e qualquer manifestação cultural é importante para o desenvolvimento do cidadão e da cidade. Qualquer grupo ou instituição pode contar teatralmente uma mesma história. Tradicionalmente, a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente é o maior espetáculo de teatro realizado em areia de praia do mundo, no local, onde hipoteticamente os fatos históricos aconteceram. O espetáculo do Instituto Histórico teve outro formato e foi realizado em outro local.

De toda a região, a Secult de São Vicente foi a que mais investiu em ações de intercâmbio, seja com as cidades-irmãs Zacatecas (México) e Naha (Japão), seja com atividades com artistas da Espanha, Portugal, Argentina e Paraguai, tendo vivenciado um festival internacional de teatro infantil. Como a secretaria analisa o legado desse intercâmbio para os artistas locais?

a2Acrescento ainda Peru, Equador, Suécia e Nigéria. Essa política gera muitas possibilidades. A possibilidade de troca de saberes, aperfeiçoando o conhecimento de artistas locais e potencializando currículos e projetos futuros. A possibilidade de intercâmbios com apresentações, exposições e formações em outros países, fortalecendo o movimento cultural de São Vicente que ganha notoriedade e repercussão também em terras brasileiras.

A possibilidade de divulgação de nossa cidade através da circulação dos artistas estrangeiros que, ao passarem por São Vicente, divulgam suas realizações na imprensa de seus países de origem, gerando mídia espontânea e fomentando nosso turismo. E a possibilidade de divulgação de nossa cidade através da circulação dos artistas vicentinos em outros países, divulgando nossa arte, nossa história e fomentando a cultura da paz.

a4Nossa gestão proporcionou possibilidades para diversos artistas dos mais variados segmentos, onde alguns deles viajaram para outros países e outros criaram vínculos profissionais e afetivos com artistas que por nossa cidade passaram.

As artes urbanas e a dança foram os segmentos que mais despontaram em projetos de apoio, como o Vias Vivas, Festival de Quadrilhas Juninas, cursos e intercâmbios. Neste ano, a tatuagem ganhou agenda e o artesanato reocupou o Parque Vila de SV. Na avaliação da Secult, o que mudou no panorama dessas quatro áreas nos últimos anos?

a3A grande mudança aconteceu na organização do movimento cultural. Todos tiveram voz e foram ouvidos. Os que se organizaram conseguiram maiores apoios, pois estavam mais envolvidos em busca de resultados e melhorias contínuas em suas áreas de atuação.

Além das novas Oficinas Culturais, a Prefeitura reabriu a Casa da Cultura Afro-Brasileira, mas iniciou ou continuou obras ainda não previstas. Está prevista a entrega neste ano do Cine 3D, Teatro Municipal ou CEU das Artes no Humaitá? Se sim, já há alguma discussão sobre como deve ser o uso desses espaços?

A atual gestão não somente reabriu espaços. Eles foram reestruturados na forma física e no conteúdo. As Oficinas Culturais são o melhor exemplo, e após o restauro do antigo Museu do Escravo, atendendo os anseios da comunidade e entidades envolvidas do seguimento da cultura negra, o local foi rebatizado como Casa da Cultura Afro-Brasileira – Memorial ao Escravizado, que, além da exposição permanente, passou a contar com palestras, encontros, sessões de cinema e eventos relacionados ao tema.

a5Já o Parque Cultural Vila de São Vicente abriu suas portas para o desenvolvimento do artesão local, com espaços para venda e oficinas permanentes, além de reestruturar a Casa da Encenação conforme foi concebida, com exposições de figurinos, fotos, vídeos e adereços do espetáculo.

A reforma no Cine 3D, que estava com sua estrutura totalmente comprometida, teve início com recursos oriundos do DADE, mas não há previsão para o término da obra, da mesma forma que o CEU das Artes no Humaitá. Acredito que a sociedade civil organizada, por meio dos coletivos artísticos e do Conselho Municipal de Políticas Culturais devam participar de discussões para o direcionamento dos novos espaços quando estiverem prontos.

Desde 2013, reportagens citam que São Vicente sofre com vandalismo em patrimônios públicos. Mais recentemente, o Conselho de Defesa do Patrimônio foi à imprensa abordar sobre a Casa Martim Afonso e estátuas na orla. De fato, há uma situação de abandono por parte do Poder Público aos patrimônios históricos?

a3Há uma situação de vandalismo generalizada em todo o Brasil. Cotidianamente recebemos notícias sobre depredação de patrimônios históricos, mobiliário urbano, esculturas, etc, inclusive em nossas cidades vizinhas. O que faltou em São Vicente foram recursos (tanto materiais, quanto humanos) para que as repostas aos atos de vandalismo fossem feitas de forma rápida.

Acredito que um trabalho de educação deva ser realizado nas escolas, tanto públicas quanto privadas, para tentar fazer com que crianças, jovens e adultos compreendam que o que é público é um bem que pertence a todos. Somente assim, através da educação, o problema de vandalismo será resolvido.

A Prefeitura reduziu a verba prevista para a Secult nestes quatro anos em 40%. Ainda assim, do montante estimado na lei em R$ 37 mi, só foram investidos nesse período R$ 14 mi (menos de dois terços). Neste ano, dos R$ 7,8 mi previstos, a Secult só recebeu R$ 1,2 mi (corte de 85%), segundo Portal da Transparência. Até que ponto pode ser atribuído esses índices pela crise financeira, erro de gestão ou a cultura não ser prioridade do prefeito?

O orçamento da pasta de cultura quase nunca é respeitado, municipal, estadual ou de forma federal. É uma das primeiras pastas a sofrer cortes em momentos de crise. Em meu entendimento, o grande problema da falta de recursos para a área da cultura em São Vicente foi decorrente da crise financeira municipal, amplificada pela crise nacional.

Ao reativar o Conselho de Políticas Culturais, a Secult conseguiu articular as leis do Sistema e do Plano Municipal de Cultura, a efetivação do Fundo Pró-Cultura e de legislações sobre o Film Comission e a permissão de bilheteria nos auditórios municipais. Como a secretaria avalia a relação com a sociedade civil e como são oportunas essas leis aprovadas?

a2Desde nossos primeiros meses de gestão, procuramos abrir canais de diálogo entre os fazedores e consumidores de cultura em São Vicente. O desenvolvimento e crescimento do setor está intrinsecamente ligado à organização desses segmentos. Um movimento de cultura onde os objetivos principais sejam coletivos, e não individuais.

Estimulamos o Conselho Municipal de Politicas Culturais a atuar de forma correta, sem a intromissão direta do Poder Público. Em parceria com a equipe da Secult, a cidade ganhou e avançou muito e em pouco tempo na elaboração de leis para o setor cultural. E o mais importante, de forma horizontal.